Vida

Morrer é a última coisa que eu quero fazer na VIDA.

Eu tenho uma compreensão absoluta desse fato inexorável que é a morte biológica das pessoas que eu amo. A primeira morte marcante de que agora me lembro é da minha Vó Vitalina. Depois, há mais de vinte anos, a de meu pai. A mais recente (e certamente a mais marcante) foi a do meu irmão Paulo, na véspera do Natal de 2011. E a segunda mais recente, em 2010, a do meu amigo José Ângelo Gaiarsa. São essas as quatro mortes que poderiam me fazer chorar. E mesmo assim não fizeram. Porque, para mim, a morte biológica nada mais é que uma separação radical irremediável. Porém, como não tenho sentimento de posse sobre aquele que morre, não posso dizer que lhe sinto a falta. Não há luto na situação que me resta. E se algum dia eu chorar por alguém que morreu, será mais por lembrança daquilo de bom que algum dia fizemos, um para o outro.

Não há sentimento de perda, nem um vazio me toma de assalto. Eu compreendo sempre o acaso que nos ligou — e o acaso que nos separa. Mas detesto supor que a morte pode lhe ter sido dolorida. Nesse sentido, um dedinho queimado de alguém me esquentando café no fogão de manhã me incomoda também. Sou contra a dor, não sou contra a perda. Aliás, só a perda pode abrir caminho para o novo — e o novo é sempre fascinante.

Claro que tem uma morte que vai me afetar diretamente: a minha. Embora remotíssima, eu também a compreenderei... Mas não quero ser chorado apenas porque fui. Aliás, imagino-me saudado em meu último dia como o personagem de Charles Denner no filme O homem que amava as mulheres.
Mas digo isto porque sei que vou durar para sempre. Para sempre ou até os 120, pelo menos. Ou talvez eu morra como previ naquele meu poema que está no livro Solidão a Mil — no cume da montanha, louvado por Maria e minha mãe. Não sei. Daqui uns oitenta anos eu talvez pense um pouco mais a respeito.


Esse texto ainda está sendo escrito. De vez em quando eu dou um mexida nele. Se bem que agora, em dezembro de 2012, tenho que atualizá-lo, especialmente porque morreu mais um irmão meu, o Beto — e para quem já escrevi esta homenagem. Mas o que me deixa bastante contente é o fato de que as pessoas que eu amo raramente morrem.



Só não quero que o texto acima passe a errada impressão de que sou frio. Não se trata disso. Sou emotivo no mais alto grau. Choro ao ver uma cena de amor, choro ao me lembrar de como sorri minha Mãe ao me encontrar, choro quando penso nos bons corações que já quebrei, choro ao me lembrar do Velhinho do Ibiti. Choro por Joyce Ann e seus gatinhos que sumiram terça-feira. Choro... Depois eu conto sobre mais coisas pelas quais eu choro.

6 comentários:

Rosângela Cunha disse...

Você é pura e raríssima emoção, meu amor, impossível para mim não me "derreter" diante de um texto seu. Lindo, perfeito, intenso, VOCÊ!

Anônimo disse...

Você sempre me fazendo pensar... Sofri perdas irreparáveis. E amigo, o novo, por mais fascinante, sempre apresenta uma espécie de dor movida pela saudade... Gosto de pensar que os que foram estão melhores agora. Não gosto de pensar que jamais os vrei de novo. Mas de repente uma surpresa: Um deles rompeu a barreira da realidade, sorriu e me disse com muita convicção, que tudo ficaria bem. Escolhi "acreditar". Então percebi que não se foram para sempre, porque os encontrei em algun cantinho de mim...
(Deise Xavier)

Cida Miranda disse...

Gosto muito dos seus texto, as vezes me identifico com sua maneira simples e transgressora de pensar. A mim a separação das pessoas que amo é como se elas estivessem em uma grande viagem. Uma hora dessas vou encontrá-las.

sonia k. disse...

Já comentei em escritos que quando mais jovem queria ser de mármore pra poder sentir nada. Nunca consegui. Sou tão derretida como v. com tudo e todos. Choro até lendo algo que me toca. Mas a dor da lembrança, mesmo que de coisas boas vividas, é algo que dói de verdade. E chorar não são lágrimas derramadas, mas o que se sente. E também já lamento que nascemos morrendo um pouco por dia, pois a vida é o caminhar para o salto. Isto me deixa também deveras sentida pois tal salto não queria dar nunca. Então tenho de voltar ao seu refrão: é a vida!...
Esteja bem.

Edson Marques disse...

Beto, um dos meus irmãos, começou a ter autonomia aos quinze anos. Com dezoito já tinha carro próprio e uma energia sensual impressionante. Bonito, saudável, simpático, charmoso e elegante. Inteligente. E com dinheiro no bolso. E com uma bundinha arrebitada que até hoje é famosa entre as mulheres. Portanto, tinha tudo para ser o que realmente foi: um conquistador maior do que Alexandre, o Grande. Mas depois, numa das curvas da estrada da vida, lá nas Colinas de Golan, derrapou, e foi convencido a se casar. Ou melhor, um casamento enorme caiu-lhe na cabeça como um cofre despencando do vigésimo quinto andar. E não havia mesmo como safar-se, em vista de circunstâncias que agora não me cabe analisar. Era o destino errando no cálculo, como se costumava dizer naquele tempo. Casou-se — e foi um marido exemplar por vinte e cinco anos. Acontece que, para um tipo desses, amante da Liberdade, é impossível ser um marido exemplar por vinte e cinco anos — impunemente. É contraditório. Mas Beto foi realmente um marido exemplar. Só não sabemos ainda a que custo. Ninguém pode dedicar-se por tanto tempo a uma relação só — tediosa — e sair sem cicatrizes ou tristezas, traumas, hematomas...

Por isso eu vivia lhe dizendo para que saltasse profundo. Sempre recusou. Mas hoje, até que enfim, ele resolveu saltar. Só que escolheu a porta errada.

Morreu.



Publicado aqui em 12.12.12.
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poetarose. disse...

tem filho ? perdeu algum ?
tive duas, perdi uma há dez anos, com 32 anos, deixou um menino de quase 5 anos, erro médico. por favor, não diga que a morte não deve ser chorada, ou coisa que o valha. não diga que a dor é pior que a perda. a perda de um filho é a maior das dores.