14.10.07

restos mortais

INFINITO JANTAR

Saia e respire o ar mais puro que puder. Sinta o perfume da vida. Veja as árvores, o movimento. Observe o céu, penetre no azul. Veja um pássaro em pleno vôo, e voe com ele para onde quer que seja. Olhe nos olhos das pessoas que encontrar — no mesmo sentido. Os homens mais bonitos. As mulheres mais bonitas. As vitrines. Não: não aceite convite para um café. Nem para nada — nada! Nem pense em convidar ninguém. Passe pelas pessoas como abelha passando por margaridas em flor. Ultrapasse-as. Siga em frente. Veja a criança que passou. Troque sorrisos e gracinhas. Ande como estivesse passeando — ou dançando.

Compre então a flor mais bonita, e uma garrafa de vinho do melhor. Volte calmamente para casa e deixe o mundo no portão. Tire a roupa toda e ande nua por uns tempos, como desfilasse no Olimpo. Se o vinho for branco, ou rosé, ponha-o para resfriar um tempo, na temperatura que você prefere. Deixe uma comidinha preparada, daquela que você mais gosta, simples. Pode ser omelete de rum, com um pouquinho de caviar ao lado, ou peixe de água doce cozido em vinho branco e suco de laranja. Pode ser fatias de presunto com melão, ou arroz soltinho com caldo de feijão; ou salada de tomate com manga e agrião; ou dois ovos fritos na manteiga de cabra e cobertos com folhas de manjericão — qualquer coisa... A comida não importa qual, desde que seja boa e feita de amor. Comida, como sempre, é apenas pretexto.

O importante é você.

Troque os lençóis, coloque aqueles mais bonitos e macios, deixe a cama arrumadinha, esperando. Borrife um pouco de perfume no seu quarto, olhe-se no espelho, de frente, de lado, de costas, de dentro — e respire fundo. Acenda na sala um incenso — com fósforo, porque tem cheiro de pólvora — talvez um Poem, indiano, e espete a varetinha numa laranja madura. Ponha aquela música de que você mais gosta. Uma vela comprida e azul no castiçal de bronze. Desligue o telefone e todas as campainhas que houver no teu mundo.

Livre-se de tudo o que for supérfluo.

Tome então um banho demorado, com teu sabonete preferido. Cante alto no banheiro. Quando terminar, passe as mãos pelo corpo, como fosse para tirar-lhe todas as gotas de água que houver, espécie pura de massagem carinhosa. Enxugue-se com a melhor toalha. Maquiagem leve, baton discreto, o melhor perfume, aquele que lhe traga as mais deliciosas lembranças. A calcinha de algodão. Vista uma roupa linda, fresca, leve, macia. Prepare-se como se fosse a uma festa no teu corpo, uma festa onde a tua alma vai hoje ser rainha. Descalça, como deusa sorridente ao sair de um labirinto.

Respire mais fundo...

O vinho, que já fora escolhido com amor, deve agora ser aberto com mais amor ainda. Se possível, uma taça de cristal tcheco. Se não tiver, serve uma dessas francesas, grande. Ou um simples copo, transparente, bem lavado. Sirva delicadamente. Sente-se. Levante o copo contra a luz. Sinta a temperatura do vinho, sua cor, o seu cheiro. Esmague o vinho com a língua no céu da tua boca, como se esmagasse um cacho de uvas maduras num vinhedo do sul em dia de sol de primavera. E sinta o sabor.

Nenhuma expectativa. Ninguém vai chegar. Você já cuidou para que ninguém chegue nos próximos dois mil anos.

A festa é para uma só pessoa.

Você tem agora todo o tempo do mundo. Porque, se você não tiver todo o tempo do mundo, não adianta. (Se você tiver pressa vá fazer outra coisa!) Então arrume a mesa como se fosse a própria Babette. Um prato, um talher, um guardanapo de linho. A flor que você trouxe, num vasinho de cristal — ou numa garrafa vazia de qualquer coisa, tanto faz. Mas é indispensável a flor ao lado da vela. Todas as outras luzes apagadas. Acenda outro incenso. Baixe o volume da música. Nenhuma chance de que possa haver interrupção dessa liturgia de amor. Nenhuma possibilidade de haver intervenção do horror. Toda a atmosfera envolve então o teu corpo — e o consagra. À alma, ao vinho, ao silêncio — à vida! Você está com a consciência à flor da pele: seria capaz até de ouvir uma mosca tossir.

O ar fresco que penetra pela janela e levanta um pouco a cortina. Um cachorro late lá na rua, na esquina. Você se lembra de certas coisas que estão longe, e de outras que estão perto. Pega o talher como pegasse um violino, começa a comer, sem pressa alguma. Sem barulho. Mastiga demoradamente, sente o gostinho real daquilo que logo fará parte do teu corpo, do teu sangue.

E bebe o vivo, também sem pressa, como estivesse deitada num altar católico, olhando você mesma no teto da Sistina.

E sorri.

Por dentro, um festival de gostosuras.

A vela está balançando as sombras vivas das coisas livres. Você fica à mesa o tempo que quiser. Quando se der por satisfeita, leva para o quarto o castiçal, a flor, o silêncio, a vida. E a garrafa com o vinho que sobrar. Deita-se do modo mais confortável. Nenhuma expectativa, só o coração pulsando de alegria. Tira a roupa devagar, passa óleo de amêndoas no teu corpo, respira fundo duas ou três vezes. As mãos, bailarinas que deslizam pelos seios, dançam o que há de melhor. Acariciam. Então você enfia a mão direita por dentro da calcinha, sente o monte de Vênus, a floresta de pêlos macios, desbrava essa incógnita que atende pelo nome de menina. Passa os dedos leves nos seus lábios úmidos de amor, espalha delícias por todos os pontos.

(O dedo médio pode ser o máximo!)

Olhos fechados, você vai coleando, movendo-se numa coreografia de cobra em êxtase. Caminha até o topo da pequena montanha. E vai se tocando como se música. Devagarzinho... Você vai se amar como nunca — como sempre. Tua mão esquerda desliza pelos seios, umbigo, garganta, clavícula, boca. E a música crescendo, de tal forma que se pode ouvir teu sangue correndo por sob a pele. Há um rio dentro agora de você — fluente.

E que logo vai transbordar.

De alegria.

De prazer...

De tesão.

Você então viverá o maior orgasmo da tua vida.

(...)

Com certeza, você viverá hoje o mais belo sonho possível nos braços abertos do Amor, antes de seguir — livremente — em direção ao infinito de todas as coisas.

Edson Marques.
No livro: Solidão à Mil - páginas 144-145.

Um comentário:

Edson Marques disse...

Às vezes (como ontem à noite em que vi a morena mais linda do século 21, como agora mesmo em que estou aqui, tomando café e ouvindo pássaros) eu tenho vontade de reescrever esse texto. Mas agora já está no livro, muita gente já leu...
Talvez faça uma revisão de estilo.
Não sei.

É a vida.