21.11.07

jo

O Livro de Jó

Jó havia perdido tudo: as amantes, o gado, os filhos, a lavoura e até mesmo a alegria de viver. Perdeu seus camelos, suas tendas e colares. Suas carroças conversíveis e até o cartão de crédito. Seu mundo começou a ruir, fragorosamente. Perdeu inclusive a esposa — mas essa ele não lamentou muito, não. E Deus ainda teve a pachorra de cobri-lo com lepra da cabeça aos pés. Jó ficou sem a casa e o jardim, sem churrasco e sem cerveja, sem música e sem licores, sem champagne, sem morangos. Na miséria mais absoluta. Sem café e sem caviar... Seus amigos — é claro, desapareceram. E Jó foi morar lá no subúrbio, ao lado de um depósito de lixo. Perdeu tudo.

Tudo, menos a fé — que era exatamente o que Satanás queria que ele perdesse.


Você sabe da história: Deus apostou com Satanás — aliás, essa foi a única aposta que Deus fez, segundo a Bíblia. A esposa, ciumenta, pede então a Jó que amaldiçoe Deus — e que morra. Como você vê, já naquela época o casamento acabava em pancadaria. Depois ainda chegam três amigos que ficam sete dias e sete noites reclamando no ouvido de Jó. Visita de sete dias é um horror; amigo reclamando, então, nem se fala. E Jó, mesmo assim, não amaldiçoou Deus, não — de jeito nenhum.


Mas quando ficou de saco cheio daquela situação, resolveu agir, decidiu confrontar Deus. Subiu ao topo da montanha mais alta que havia naquelas bandas, e gritou: "Deus, o senhor tá me fodendo, mas eu nunca pequei, não mereço passar por isto. Sou inocente!"


E Jó louva Deus.


E Deus então fala com Jó através de um trovão. Deus usa metáforas, você sabe. Às vezes metáforas ribombantes... Deus manda sinais — e não é todo mundo que entende. Deus não fala português. A presença de Deus impressiona Jó, mas Deus não lhe dá as respostas que ele queria. Deus usa uma linguagem poética, e lhe pergunta: "Jó, onde o caminho da morada de quem engendra a geada do meu céu?"


Jó fica pensando. E mesmo sem ouvir as respostas que buscava, Jó tem um insight. Jó se transforma espiritualmente, se arrepende, aceita o seu destino, aceita as suas dores. A sua sina. A sua cruz.


Então Deus começa a devolver tudo o que Jó havia perdido: os camelos, as amantes, as tendas, o cartão de crédito, a saúde, as carroças conversíveis, a alegria de viver — e até mesmo o celular e os licores franceses. Mas quando chegou a vez da esposa, Jó gritou: "Essa, não, meu Senhor. Essa não!"


E dizem que Jó voltou então a viver — cheio de graça e alegria.
E dormindo sozinho numa enorme casa de casal.
Dizem que chegou aos 140 anos...
Feliz da Vida!



O Livro de Jó é radical.


Portanto, antes que a nossa hora chegue, eu gostaria que você pensasse um pouco mais no Livro de Jó. Na aposta de Deus com Satanás — esse duelo de titãs. Como é que foi parar na Bíblia essa grande obra literária? A principal questão do livro de Jó, filosoficamente, é esta: Qual a razão do sofrimento humano? É bom lembrar que estávamos no ano 400 antes de Cristo, mais ou menos. E o autor dessa história ninguém sabe quem foi. Mas era um gênio da literatura, o Shakespeare da Bíblia. Fosse hoje, teria criado um blog.


Edson Marques.
Minha respeitosa versão.
Do meu livro Solidão a Mil – página 52.




Uma Crítica
Por Felipe Fanuel
Salve!

É com bastante alegria que leio esse texto. Muita coisa interessante! Suas leituras revelam sempre um lado desconhecido de qualquer hermenêutica: a sensibilidade poética de ler detalhes, perceptíveis apenas por gênios que sentem a vida antes de serem sentidos por ela. Essa idiossincrasia nos insere no seu mundo, literário por essência, porque você quer ver a realidade do jeito que ela é, não como um meio, tampouco como um fim, mas como ela é, como vida. É por isso que seu blog nos faz pensar, nos incomoda, faz-nos ridículos diante da tela, provoca problema de vista. (Na vida real, a gente vê uma cadeira e acha que é para sentar, ponto. Aqui você pinta a cadeira e diz que ela é só cadeira, nada mais, pois a sua condição é ser cadeira.)

Sabe. Seu comentário de Jó mostra uma aproximação extremamente radical com a narrativa. Na verdade, você constrói uma outra narrativa a partir da narrativa. Que se dane o Jó histórico (ele existiu?), você quer o Jó literário! Aquele Jó parecido com muita gente hoje: tinha tudo, hoje tem nada. Personagem arquetípico é, portanto, já que não há sociedade onde não se prega a consciência de que quem tem muito deve-se cuidar para não ficar na lama. A aposta divina com o cão merece um romance. Aí tem coisa! Vale a pena botar a pena no papel. De quebra, a sua aplicação filosófica do livro no final denuncia uma quedinha sensível (que há muito eu já desconfiava) pela ontologia. Afinal, a pergunta "qual a razão do sofrimento humano?" já está repleta de respostas. O autor do Livro de Jó seria mais insolente. Sua ontologia é mais confrontativa do que questionadora. Sua ontologia é mitológica. Religiosa, diríamos apressados. Mas esquecemos que no mito, na resposta, já está a pergunta existencial profunda, do mesmo jeito que hoje, na pergunta, já está a resposta.

2 comentários:

Lu Rosário disse...

Maravilhoso, Edson!

Keila Abreu disse...

Fascinante! Estou morrendo de rir!
Lembrou-me o Saramago, no último livro, Caim!
Adorei!