Este é um blog experimental — no mais amplo sentido que essa palavra possa ter.
Aqui não defendo posições conservadoras.
Também não busco ser compreendido, nem pretendo apenas te agradar.
Eu quero, primordialmente, te fazer pensar. Contra ou a favor ao que proponho — não importa.
Mas, pensar.
E não tenho culpa se além de loucura Deus me deu razão. Mude:
Mude
3.10.01
A primeira.
Só existem dois tipos de amor: o primeiro, e o último. Eu tinha sete anos, e ela, nove. Eu tinha tesão, e ela — também.
Quando a primeira paixão da minha vida começou a incendiar-me o peito, tornei-me um serzinho sensual e masturbante full-time. Transformei meu coração num sol inesgotável, e pensei que todas as mulheres do mundo se chamariam Marina.
E foi nessa idade que entrei glorioso na fase fálica do meu crescimento libidinal, montado num belo cavalo de sensações brilhantes, inocentes e lúbricas. Ao mesmo tempo, comecei a estimular principalmente duas coisas em mim: meu intelecto e meu sexo. Quando descobri que eu tinha o supremo poder de dar-me orgasmos, vibrei, deliciosamente — nos dois sentidos da expressão. Por isso, ainda hoje eu creio num Deus que não é qualquer. É um Deus que sonha — e goza.
Fico pensando.
Elisabeth Campagnucci, meu primeiro amor sexual de fato, primeira transa efetiva. Sábado à noite. Na mão esquerda, um litro de Martini bianco, que comprei numa pastelaria do Parque D. Pedro, em São Paulo. Na direita, a mão esquerda do meu então amor mais fascinante. Houvéramos nos encontrado cerca de quinze dias antes, na Praça da República — e eu já trazia na mão duas rosas vermelhas, que seriam trocadas por Beth. Era a primeira vez que eu, dezessete anos, dava flores a alguém que amava. O poeta meio inseguro já começava a ter refinadas maneiras de amante.
Nos abraçamos muito. Os três: eu, ela — e a vida.
Depois de alguns dias gloriosos e muitos abraços fortes, demorados, ela me elogiou com seus lábios finos e vermelhos: — Que bom: você é diferente, Edson: me abraça, sinto teu sexo em minhas pernas, mas você não se esfrega em mim. Me abraça como se dançássemos, com suavidade. Que bom!
Beth era tântrica e eu nem sabia o que isso significava. (E já comecei a gostar dessa coisa.)
Nesse dia da primeira vez, fui seduzido.
Ela tomou a iniciativa, arrumou a casa do seu tio e me convidou para irmos até lá. Bebemos dois ônibus, já era tarde da meia noite, o litro quase branco de Martini equilibrando meus braços de amor, cachorros latiam, havia luar em São Bernardo. A lua como Diana, eu ainda não sabia. Não lembro do mês, mas o ano era não-sei-quanto. (Ou terá sido antes?) Assim que chegamos me contou que seu tio não estaria em casa. (Tremi). Ela sabia que eu era virgem, em cartas já me havia confessado — ao vivo também.
Aquelas brincadeiras com Marina e todas as outras, na minha infância e adolescência — eu nem conto. Talvez um dia, vinte anos depois da minha morte, quem sabe... Também não levo em consideração todas as transas adolescentes porque porque lhes faltava um toque de sublime. Eram mais exercícios sexuais do que paixões enlouquecidas.
Então, explorando nossos mútuos segredos, tomamos o restinho do martini em dois copos de vidro, eu e Beth. Para o poeta, isso equivale a um Veuve Cliquot em duas taças de Crystal. Fizemos amor como se transássemos, e não me lembro como. Na teoria, eu era um grande amante, mas não devia ter muita prática. Há nuvens na memória quanto a isso. Dormimos juntos, na mesma cama, de uma forma que Kundera jamais recomendaria.
Dia seguinte, domingo de Páscoa, quando acordei, ainda de bruços, olhei para o azul do lençol limpo, perfumado. (Por isso a fixação em lençóis azuis). Certifiquei-me de que era eu mesmo, e me virei. O teto — o próprio teto do mundo, pintado por Michelangelo, Episódios da Criação dançando no meu cérebro inquieto. Na parede à minha frente o Sagrado Coração — e Jesus, cabeça inclinada, a palma das mãos para cima, me olhava, sorrindo. (Foi a primeira vez que vi Jesus como um cara legal). À minha direita, a janela grande, sem cortinas, por onde o claro e o óbvio me enchiam de luz. À esquerda, a porta aberta e a música dos Beatles (qual?) entrando por ela. — Nenhuma pressa. Me senti espreguiçando na própria Capela Sistina... Que diferença da pensão onde eu morava... (Fora morar nessa pensão porque queria vencer sozinho na vida, sem ajuda do meu pai. E venci — mas esta é outra história!) Uma toalha felpuda, branca, ao meu lado, na cama. Levanto-me, enrolo-me, saio, quase caio. A mesa estava posta: era feijoada, feita-me por meu amor para o nosso amor. E para o seu amor: — Dormiu bem? Quer um banho? — me beijou na boca. Era a primeira vez que alguém, em toda minha santa vida, me fazia essa pergunta. "Se dormi bem?" — Ora, dormi como deveria ter dormido desde criança! Foi a primeira vez que sonhei que estava sonhando acordado ao me levantar. Beth ainda nua, e eu, perplexo. Ela, desenvolta, eu — meio enrolado. Havia uma garrafa de cerveja Brahma sobre a toalha xadrez, um clima escandaloso de paixão e de mistério. Me beijou de novo com seus lábios quentes, enquanto me apertava o sexo desesperadamente duro: — Você abre a cerveja? A chave parecia de prata, e brilhava naquela quase tarde de um subúrbio ensolarado e esquecido, onde ganhei para sempre a minha eterna virgindade. Servi delicado o ouro líquido nos dois copos, e ainda em pé lhe ofereci o brinde: — À vida! — À vida, claro. E a nós, antes de tudo — disse ela, sorrindo, enquanto arrancava-me a toalha, deixando-me nu. Sentamos, um quase no colo do outro. Era a primeira vez que alguém me fazia almoço exclusivo. Senti-me rei, príncipe excitado, um amado de verdade, um Jesus, um Buda, um Bhagwan. Do que falamos não me lembro. Só pode ter sido sobre amor e liberdade. Era o meu primeiro banquete, um banquete em que meu sexo ficou duro do começo ao fim.
Inesquecivelmente sexo.
Como sobremesa, pediu-me que virasse um pouco a cadeira, sentou-se aos meus pés, separou-me os joelhos um do outro, com extrema delicadeza, arrancou meu cacete vivo para fora de si mesmo, pediu-me que fechasse os olhos — e chupou-me de uma forma que eu jamais supunha ser possível. Engoliu meus jatos de amor, limpou-me com o mesmo guardanapo manchado de caldo de feijão, pegou minha mão e conduziu-me voando para o quarto. Transamos novamente — e de novo, novamente. Nossos líquidos inundaram os lençóis. E isso me deixou maravilhado. Não me lembro de todos os detalhes. Confesso agora, naquela época eu não sabia o que fazer com uma mulher. Na biblioteca do Partido Comunista não havia o Kama Sutra. O orgasmo feminino, portanto, me era uma incógnita.
Nunca gostei muito de falar "fazer amor". Prefiro transar. Depois te explico por quê.
E voltei a São Paulo, lendo o livro de John Steinbeck que ela me deu, sacolejando no ônibus madrugante todas aquelas gostosuras despertadas que comecei a perceber havia em mim. Entreguei-em a um Deus Desconhecido. Naquele dia a realidade começou a ficar muito melhor do que já tinha sido.
E nunca mais parou de ficar!
Quando contei a Paritosh esses fatos da minha primeira relação sexual, ele me disse: “Você começou mal — e começou bem”. — Mal, porque sem escola; e bem, porque foi “conquistado”. Ela, ao que parece, era uma safada, no sentido de Safo, não de safadeza. Quantos anos tinha? — Ela, dezenove; eu, dezessete — respondo. Começo a pensar. Ou seria menos? Beth, meu primeiro amor tântrico, durou dois anos longe de mim, e mais um, depois que nos encontramos. Ela me dizia algo como: — Fique pouco. “Não me preencha em demasia. Serei apenas um dos teus amores. Nunca brigaremos, porque não te darei razões — nem permitirei que me sejam dadas por você. Antes de nos cansarmos um do outro, aumentaremos a distância entre nós dois”. Agora que já era um homem (não porque tivera a primeira transa, mas porque tive a primeira aula), andaria com as próprias pernas.
E amaria do meu próprio jeito.
Mas Beth, primeiro sexo, sumia muito de vez em quando. — Te amo muito, mas preciso te perder — dizia, segura de si. Ela já sabia que o excesso de presença mata o amor. E como diz minha mãe: depois de comermos juntos meio quilo de sal, a vida a dois já não será mais a mesma... — Quero ser tua amante — Beth me pedia. — Namore outra, enquanto isso. Procure uma menina mais nova que você.
Santo conselho!
Foi então que conheci Célia, oito horas sentados num banquinho da praça. Nunca toquei nos seios dela, nunca lhe pus as mãos no clitóris; nunca transamos. Célia era tão pura, tão inteligente, tão lúcida, que me apaixonei. Além de tudo, ela era comunista. Então, por uns tempos — um ano talvez — tive, simultaneamente, uma namorada-namorada, e uma namorada-amante.
E eu amava as duas com a mesma intensidade.
Com Beth, o sátiro lúbrico saltitava e caía de boca no seu sexo, mas com Célia era o intelectual comunista: até os beijos que nos dávamos na boca eram manifestações políticas de apreço pessoal. Ela era intocável, puríssima. Àcima da xoxotinha dela não havia um Monte de Vênus — havia uma Sierra Maestra. (Isto mostra o quanto aquele comunista era um tolo...) E porque nessa época consegui amar duas mulheres ao mesmo tempo — e vi que isso era bom — acabei concluindo que poderia amar duas pelo resto da minha vida. — Ou mais!
O que me complicou, mesmo, não foi o fato de ser comunista, foi ter querido salvar a classe operária — uma classe inculta, sem graça, pobre, e de extremo mau gosto. Meu grande erro foi ter querido, por anos e anos a fio, salvar uma classe que não tem classe, não tem finesse. Uma classe que não tem salvação, em nenhum lugar do mundo. E que, se um dia se salvar — no seguinte já morrerá soterrada de novo na sua própria mediocridade.
Mas nunca abandonei o ideal socialista...
Então Paritosh me pega pelo braço, desvia o assunto: — Irresponsável é quem não realiza os próprios sonhos.
Concordo.
E fico sempre pensando no que me disse Beth aquele dia: “Edson, procure uma menina mais nova que você...” (Até hoje sigo à risca esse conselho!)
— Irresponsável, Swami, irresponsável é aquele que não se aventura, não se joga no escuro profundo da Vida. Irresponsável é aquele que só segue os caminhos já trilhados, só visita os lugares que existem nos mapas. Irresponsável é aquele que segue apenas o rebanho. Não corre riscos, não aspira ser mais, não deseja, não vibra, e pouco a pouco vai deixando até de sonhar. Esse é o verdadeiro irresponsável: em vez de voar, chafurda no pútrido lodo do medo... (Paritosh continua falando, falando, falando.)
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Mude Mas comece devagar,
porque a direção é mais importante
que a velocidade.
Sente-se em outra cadeira,
no outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.
Quando sair,
procure andar pelo outro lado da rua.
Depois, mude de caminho,
ande por outras ruas,
calmamente,
observando com atenção
os lugares por onde
você passa.
Tome outros ônibus.
Mude por uns tempos o estilo das roupas.
Dê os teus sapatos velhos.
Procure andar descalço alguns dias.
Tire uma tarde inteira
para passear livremente na praia,
ou no parque,
e ouvir o canto dos passarinhos.
Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas
e portas com a mão esquerda.
Durma no outro lado da cama.
Depois, procure dormir em outras camas.
Assista a outros programas de tv,
compre outros jornais,
leia outros livros,
Viva outros romances!
Não faça do hábito um estilo de vida.
Ame a novidade.
Durma mais tarde.
Durma mais cedo.
Aprenda uma palavra nova por dia
numa outra língua.
Corrija a postura.
Coma um pouco menos,
escolha comidas diferentes,
novos temperos, novas cores,
novas delícias.
Tente o novo todo dia.
o novo lado,
o novo método,
o novo sabor,
o novo jeito,
o novo prazer,
o novo amor.
a nova vida.
Tente. Busque novos amigos.
Tente novos amores.
Faça novas relações.
Almoce em outros locais,
vá a outros restaurantes,
tome outro tipo de bebida
compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo,
jante mais tarde ou vice-versa.
Escolha outro mercado,
outra marca de sabonete,
outro creme dental.
Tome banho em novos horários.
Use canetas de outras cores.
Vá passear em outros lugares.
Ame muito,
cada vez mais,
de modos diferentes.
Troque de bolsa,
de carteira,
de malas.
Troque de carro.
Compre novos óculos,
escreva outras poesias.
Jogue os velhos relógios,
quebre delicadamente
esses horrorosos despertadores.
Abra conta em outro banco.
Vá a outros cinemas,
outros cabeleireiros,
outros teatros,
visite novos museus.
Mude.
Lembre-se de que a Vida é uma só.
Arrume um outro emprego,
uma nova ocupação,
um trabalho mais light,
mais prazeroso,
mais digno,
mais humano.
Se você não encontrar razões para ser livre,
invente-as.
Seja criativo.
E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa,
longa, se possível sem destino.
Experimente coisas novas.
Troque novamente.
Mude, de novo.
Experimente outra vez.
Você certamente conhecerá coisas melhores
e coisas piores,
mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança,
o movimento,
o dinamismo,
a energia.
Só o que está morto não muda!
Edson Marques.
Change
Only what is dead does not change
- and you are alive.
Versão em inglês feita por Paulo Coelho.