A primeira noite de um menino.
Quando a primeira paixão da minha vida começou a incendiar-me o peito, tornei-me um serzinho sensual e masturbante full-time. Transformei meu coração num sol inesgotável, e pensei que todas as mulheres do mundo se chamariam Marina.
Eu tinha sete anos — repito — e morava com minha Vó Vitalina.
E foi nessa idade que entrei glorioso na fase fálica do meu crescimento espírito-libidinal, montado num belo cavalo de sensações brilhantes, inocentes e lúbricas. Ao mesmo tempo, comecei a estimular principalmente duas coisas em mim: meu intelecto e meu pintinho. Quando descobri que eu tinha o supremo poder de dar-me orgasmos, vibrei, deliciosamente — nos dois principais sentidos da expressão. Por isso, ainda hoje eu creio num Deus que não é qualquer: é um Deus que sonha — e goza.
Fico pensando.
Beatriz Pimenta Magalhães. É tudo ficção, mas faz de conta que é verdade.
/// Por sugestão de Daniela e Alessandra, estou excluindo daqui parte do texto em que falo de Beatriz Magalhães. Certas coisas e certas pessoas a gente tem simplesmente que apagar. Dos livros já publicados (inclusive as edições do Solidão a Mil de 1998, 2003 e 2011) não as posso tirar, mas nas próximas edições farei uma limpeza! ///
Não me lembro de todos os detalhes.
Nunca gostei muito de falar "fazer amor".
Prefiro transar.
Depois te explico por quê.
E voltei a São Paulo, lendo o livro de John Steinbeck que ela me deu, sacolejando no ônibus madrugante todas aquelas gostosuras despertadas que comecei a perceber havia em mim. Entreguei-em a um Deus Desconhecido.
Naquele dia a realidade começou a ficar muito melhor do que já tinha sido.
E nunca mais parou de ficar!
(...)
Ela sempre me dizia algo como:
— Fique pouco.
“Não me preencha em demasia. Serei apenas um dos teus amores. Nunca brigaremos, porque não te darei razões — nem permitirei que me sejam dadas por você. Antes de nos cansarmos um do outro, aumentaremos a distância entre nós dois”.
Agora que já era um poeta, andaria com as próprias pernas.
E amaria do meu próprio jeito.
Mas Beatriz sumia muito de vez em quando.
— Te amo muito, mas preciso te perder — dizia, segura de si. Ela já sabia que o excesso de presença mata o amor. E como diz minha mãe: depois de comermos juntos meio quilo de sal, a vida a dois já não será mais a mesma...
— Quero ser tua amante — Beatriz me pedia. — Namore outra, enquanto isso. Procure uma menina mais nova que você.
Santo conselho!
Foi então que conheci Célia, oito horas sentados num banquinho da praça. Nunca toquei nos seios dela, nunca lhe pus as mãos no clitóris; nunca transamos. Célia era tão pura, tão inteligente, tão lúcida, que me apaixonei. Além de tudo, ela era comunista. Então, por uns tempos — um ano talvez — tive, simultaneamente, uma namorada-namorada, e uma namorada-amante.
E eu amava as duas com a mesma intensidade. Com Beatriz, o sátiro lúbrico saltitava e caía de boca no seu sexo, mas com Célia era o intelectual comunista: até os beijos que nos dávamos na boca eram manifestações políticas de apreço pessoal. Ela era intocável, puríssima. Àcima da xoxotinha dela não havia um Monte de Vênus — havia uma Sierra Maestra.
(Isto mostra o quanto aquele comunista era um tolo...)
E porque nessa época consegui amar duas mulheres ao mesmo tempo — e vi que isso era bom — acabei concluindo que poderia amar duas pelo resto da minha vida.
— Ou mais!
O que me complicou, mesmo, não foi o fato de ser comunista, foi ter querido salvar a classe operária — uma classe inculta, sem graça, pobre, e de extremo mau gosto. Meu grande erro foi ter querido, por anos e anos a fio, salvar uma classe que não tem classe, não tem finesse. Uma classe que não tem salvação, em nenhum lugar do mundo. E que, se um dia se salvar — no seguinte já morrerá soterrada de novo na sua própria mediocridade. Mas nunca abandonei o ideal socialista...
Então Paritosh me pega pelo braço, desvia o assunto:
— Irresponsável, Mahatma, é quem não realiza os próprios sonhos.
Concordo.
E fico sempre pensando no que me disse Beatriz aquele dia:
“Edson, procure uma menina mais nova que você...”
(Até hoje sigo à risca esse conselho!)
— Irresponsável, Swami, irresponsável é aquele que não se aventura, não se joga no escuro profundo da Vida. Irresponsável é aquele que só segue os caminhos já trilhados, só visita os lugares que existem nos mapas. Irresponsável é aquele que segue apenas o rebanho. Não corre riscos, não aspira ser mais, não deseja, não vibra, e pouco a pouco vai deixando até de sonhar. Esse é o verdadeiro irresponsável: em vez de voar, chafurda no pútrido lodo do medo...
(Paritosh continua falando, falando, falando.)
Mas ontem,
Eu tive a sorte de conhecer Reich antes de conhecer Freud.
E a sorte, maior ainda, de conhecer Marina quando eu tinha sete anos de idade.
Um pouco depois, a impressionante sorte de conhecer Sônia aos doze.
E, desde então, muitas outras sortes. Muitas...
SM-11103 # TA12084.
O texto acima está no meu livro Solidão a Mil - página 402.
Maiores detalhes, especialmente as coisas maravilhosas que eu e Marina fazíamos, estão no meu livro Teoria do Acaso, páginas 084 e seguintes. Onde também escrevo a respeito do que Freud dizia sobre a sexualidade infantil.

Recebi hoje um telefonema de Beatriz Pimenta Magalhães, dizendo que vai processar-me judicialmente por exposição de imagem. Quase trinta anos depois, ela ressurge, ressuscita como um Cristo aos pedaços, reclamando e reclamando. Parece que a coitada desacostumou-se da poesia e da liberdade. Talvez até do sexo...
ResponderExcluirÉ uma pena.
AFF...ESSA ENTÃO NÃO É ELA... DEVE SER UM CLONE DELA....
ExcluirDEPOIS DE VÁRIOS ENSINAMENTOS FRUTÍFEROS QUE ELA LHE DEU... É DEMAIS ESSA!!!!!!!!!
O BLOG ESTÁ DIVINAMENTE LINDO!!!!
ADOREI!!!
Pois, é, Marilis.
ExcluirNem todos conseguem manter a luz inicial.
Algumas pessoas se apagam... rs!
Flores...
Lindo texto... Não conhecia!!!
ResponderExcluirObrigado, Igor.
ExcluirMas tive que mudar o texto.
Excluí referências a uma certa pessoa chamada Beatriz.
O original, agora, só nos livros já editados.
Abraços!