15.12.01

meu professor

O Mestre.


Então eu lhe digo:
— Meu unico mestre hoje é você, Paritosh.
E ele faz de conta que acredita.

Mas eu me lembro de um outro professor, que agora resgato lá da minha pós-infância.
Instigante, irônico:
— Edson, céu existe? — ele me pergunta.
E me olhou com seus lábios sorridentes, olhos desafiadores, cabelos brancos espatifados. Poderia ser céu de poeta, de reverendo, céu de Deus ou de Lúcifer anunciando sua mãe, céu da lua, de Diana, de Vitalina, de Galileu, de Manuel Bandeira — ou de Einstein, tanto faz. Mas não me importava qual fosse naquele momento. Simplesmente, respondi:
— Claro!

Ele sabia que eu era "ateu", mas também sabia que eu deixaria de sê-lo, quando crescesse um pouco mais. Na verdade, eu não podia crer no Deus que ele dizia amar, e ele não acreditava que o meu Deus diferente pudesse ser tão igual ao Dele mesmo. Até hoje o meu Deus é diferente. Maior, mais abrangente — e desligado de qualquer religião. A classe toda vibrava com nossas discussões lógicas acaloradas. Ele também era o Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil. Talvez por isso, aprofundávamos as questões que nos uniam e deixávamos em aberto aquelas que nos pudessem separar — intelectualmente. Falávamos de supernovas e buracos negros, coisas então desconhecidas e improváveis. De onde viemos, para onde iremos, quem é que nos criou. Nossas conversas eram instigantes, embora ninguém nos entendesse.

Ele gostava de ler alto as minhas redações.
Na minha cabeça, eu só tirava dez — mesmo quando era só um 9...
— Continue, Edson: teu estilo está ótimo. Só torne o texto um pouco mais pessoal. E use mais metáforas e parábolas — ele costumava me dizer.
Certa vez me deu 8,5 — um ponto e meio como desconto por minha suposta pressa. Acho que ele não gostou de eu ter escrito vinte linhas em menos de cinco minutos, e sair correndo para jogar basquete. Me deu nota "baixa" mas ungiu-me como se eu fosse um Davi. (Eu havia sido convocado precocemente para a seleção da cidade. Tinha quatorze anos, era o menor de todos os escolhidos. No primeiro teste, fui cortado. Foi quando decidi ficar só no futebol.)

Samuel Barbosa é o tipo de homem que não peca, mas, quando comete pecados, os comete de forma inesperada e incorrigível. Disse-me ter um dia queimado livros, quando jovem. (Se fora ato de ódio, logo imaginei o enlouquecido Antero no quintal, a queimar livros como um português da Idade Média). Disse-me que fez um monte, e acendeu a pira — espécie de ígnea homenagem a um deus maldito analfabeto.

Mestre Samuel ainda hoje (2001) tem vasta cabeleira branca, e um rosto de Micky Jagger um pouco envelhecido. Fascinante quando fala, misterioso quando não. O Reverendo, só posso venerá-lo. Não porque tenha mais tarde me conduzido à confiança num Deus improvável, mas porque respeitou meus poéticos e inocentes demônios, como fossem Dele.


Houve um outro professor de português, dois anos depois, que pediu ao delegado de polícia que viesse à escola me prender. Como Dr Evandro era meu amigo, o crápula travestido de Carbone não ficou satisfeito. Tanto que, na semana seguinte, deu-me nota zero pela redação cujo título era “Brasil: ame-o ou deixe-o”. E além disso chamou o DOPS, quatro tenentes do Exército foram me buscar, fiquei preso no Segundo Regimento de Obuses, RO-105, na cidade de Itú, SP. Naquela época, quem não soubesse escrever (nem amar o Brasil) da forma “certa” era preso. Só não me torturaram porque sempe fui articulado, falei com capitão Campos, discuti com coronéis, quase os convenci a mudar de lado.

Quando cheguei ao quartel, de manhã, um deles me chamou de burro. Era o comandante, o coronel Gomes.
— Quanto é dezessete elevado à potência zero?
— Um!
— Como se escreve “essessão”?
— Com x, c, c cedilha e baioneta!
Me olhou sério parecendo não ter gostado da resposta.
— Levem o engraçadinho lá para dentro!
Depois que pude mostrar o que pensava até que fui bem tratado por todos com quem conversei. Um deles, cujo nome era Tonico, levou-me, escondido, um bife à milanesa, roubado aos oficiais.

Naquele dia vi que poderia ser amigo também dos militares.
Eles só cumpriam ordens.

Voltando ao filho bíblico de... de quem mesmo?


Tem duas coisas que jamais te perdoarei, professor Samuel. A primeira, quando mostrou-me Eneida — sem que a despisse para mim. Devia tê-la desnudado inteirinha. Eu só me apaixono por coisas nuas. Você me apresentou Eneida, dei uma olhada por cima, e não gostei das roupas que ela usava. Você devia tê-la colocado nua em minha cabeça. Devia ter-lhe aberto as pernas virgens, e mostrado sua menininha escandalosa, professor Samuel Barbosa. Nem precisava ter rima — eu cairia de boca no clitóris da Eneida, para lamber-lhe a poesia toda. Você devia ter-me ensinado como é que se conquistam musas desse naipe, professor — devia ter pedido que eu roçasse a cabeça intelectual do meu sexo nos peitinhos dela. Já que a nossa escola era uma zona, você bem que poderia ter sido um proxeneta de Virgílio, um rufião das divindades — um cáften das Ninfas.

Teria poupado muito do tempo que às vezes perdi singrando mares de segunda nesta vida. Eu tinha quatorze anos, era tímido, e não consegui perceber sozinho a formosura da Eneida.


A outra coisa que não te perdoo foi ter dito que o teu Deus era diferente do meu. Os Dois eram os Mesmos, professor — os Mesmos! Acho que só nós é que não sabíamos. Exceto por tanto, só posso te agradecer, professor. Inclusive, por todas aquelas orações insubordinadas que rezávamos todo dia ao Mesmo Deus — sem que o soubéssemos. Só não digo que foi você quem me ensinou a escrever, porque seria repartir um entusiasmo que só pode ser meu — e uma certeza de que duvido muito.

Houve outros professores.

Mário Morschel, que me indicou o belo caminho da Filosofia. Talvez a decisão mais importante da minha vida. Antonio Visconti, me dizendo: "Você ainda vai usar logaritmo, Edson!" Nunca acreditei, até o dia em que precisei escrever um programa em Assembler para calcular transformadores elétricos na Itel. Houve o professor Péricles, que me ensinou Artes. Timochenko e Luiz Augusto Milanesi, entre outros, na ECA. Marilena Chaui, Ricardo Mário Gonçalves, na Filosofia. Rubens Rodrigues Torres e seus voos circunflexos. Oswaldo Porchat, meu mestre de Lógica, e que agora está na Unicamp. Goffredo Silva Telles Jr, na Faculdade de Direito USP do Largo São Francisco. Dona Therezinha, a primeira. Eu tinha seis anos e a ponta do meu lápis quebrou. João Augusto Ribeiro Pinto, professor de Física no colegial, que chegou a chorar quando me contou da reunião onde se decidiu que me mandariam prender "por subversão", injustamente. Jamais esquecerei suas lágrimas caindo no balcão do nosso restaurante numa tarde de domingo...

Houve ainda outros, e falo deles no livro Teoria do Acaso: Tio Jora, Tio Isac, Tia Yole, Tia Ana. Houve Orlando Marques de Camargo, Juarez, Ana Maria e Dilermando – cada um a seu modo me abrindo portas.

Houve, antes de tudo, a vó Vitalina.

E os fundamentais: minha mãe Iracy e meu pai Luizito.

E, finalmente, Paritosh Keval.

Nenhum comentário: