Ele era um louco por metáforas e céus azuis enluarados. Ficou cego porque via demais. Assim como Jesus, todos os irmãos, com duas ou três exceções, o detestavam. Criativo, montava estruturas geodésicas já aos cinco anos de idade. Dizem que, quando criança, transformava bujões de gás em lança-chamas. Peralta como um saci. Era bom de cálculo: aos dezessete, passou direto no vestibular de Engenharia da Poli-USP. Mas não fez o curso porque sentia-se responsável pelas próprias razões... Ou por outras, que talvez não saibamos quais. Bebia muito, e ficava chato quando bebia. Nessas horas, costumava desenterrar defuntos. Por isso a distância entre nós era sempre necessária. Mas, nos momentos de lucidez (se é que podemos chamar de lucidez esses períodos em que o sangue está seco), nos raros momentos de lucidez, ele tinha uma conversa boa. Na última vez em que nos vimos almocei em sua casa, na área enorme cheia de flores e lembranças. O almoço foi ele que fez. De vez em quando eu dizia, olha, tá queimando... E ele então corria lá pra cozinha. Por sugestão minha, pegamos a comida nas próprias panelas. Sentamos ali, ao lado do jardim, e ficamos conversando por três horas. Sobre a vida, que ele, contraditoriamente, amava tanto. Um caramanchão esquisito que tinha até um pé de bucha. Me deu uma, que ainda está na mala que nunca desfaço. Na saída ele me disse, leve uma rosa. Era a mais bonita, lá no alto da roseira.
Morreu hoje.
Não o Paulo, mas a rosa.
Duas das coisas que o mataram: mania de perfeição e pinga de má qualidade.
Morreu hoje.
Não o Paulo, mas a rosa.
Duas das coisas que o mataram: mania de perfeição e pinga de má qualidade.
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