21.11.17

anseios num pano de prato

Era domingo. Era uma tarde chuvosa de domingo em que a vida virou uma encruzilhada: ou eu voava para longe dali em liberdade absoluta, ou me afundava salvando a relação. Era mais do que um dilema: era um projeto de vida fazendo água. Eu me sentia preso. Na verdade, eram grilhões recíprocos. Por isso, olhei fundo nos olhos dela e lhe disse com firmeza:
Não posso mais condicionar o meu galope ao teu trote.
Senti que ela entendeu a metáfora seca e a razão do meu cansaço. Meus olhos falsamente duros puseram distância entre os afetos. Nossas velocidades haviam se tornado muito desiguais, e isso requeria solução imediata. Ela cambaleou, e os seus dezessete anos de vida, frágeis, adolescentes, tremeram todos, um a um. Quase desabaram ali, naquele cimento frio da nossa cozinha. Ela sussurrou um agora inesquecível “eu te amo”, meio desnorteada. Aquilo foi tocante. Por dentro, amparei-a com amor, dei-lhe um abraço forte e terno, coloquei-a de novo no meu colo e cantei outra vez as canções de ninar que eu costumava cantar pra ela. Mas, por fora, virei um poste. Era preciso tornar-me gelo. Era preciso fazer teatro. Mesmo porque nosso relacionamento já estava durando mais do que um relâmpago.
Então, a coitadinha embrulhou seus pequenos anseios num pano de prato e saiu chorando.
Nunca mais nos encontramos.
Acho que foi a maior injustiça que eu jamais cometi.


Entretanto, visto agora com a distância de oito ou nove anos, esse meu gesto talvez tenha salvado as nossas duas vidas. Pois, continuássemos juntos daquela forma, teríamos certamente assassinado o nosso próprio amor imortal.

20.11.17

questione tudo

uma chance ao Inesperado e abrace forte a gostosura da Surpresa. Ame a Liberdade, o Amor e a Loucura sobre todas as coisas. Afaste-se das pessoas perigosamente normais. Sonhe só o sonho certo e abandone quem te oprime, agora mesmo. Desmonte as relações totalitárias.

Mas não creia cegamente no que eu digo.

Questione todas as convicções, inclusive as minhas. E questione também as tuas — ainda mais!

18.11.17

olimpo

Tenho vontade de reunir esses deliciosos loucos e loucas, esses santos e santas que eu amo e amei, essas deusas e musas que já conheci e outras que ainda vou conhecer, convidá-los a subir num barco, enorme — um navio, transatlântico — levá-los todos para uma ilha luminosa, deserta e grega, e viver com eles para o resto das nossas vidas. Em liberdade absoluta. Falando todas as línguas, amando de todas as formas livres, bebendo de todos os vinhos, rezando a todos os deuses... A vida será uma festa interminável! Viveremos dançando todas as danças, ouvindo todas as músicas, escrevendo belíssimas poesias de amor, plantando flores e colhendo estrelas, tomando sol, sorrindo e gargalhando. E transando com a própria Vida — todo dia, o dia todo.

17.11.17

bondade

Conheci um homem que era bom em ser ruim, e outro que era ruim em ser bom. Já eu — prefiro quem é bom em ser bom. Mas rio de quem é ruim em ser ruim.

15.11.17

viver na cama

Só há uma única chance de eu morrer na cama: É fazendo amor. Doente ou cansado — jamais!

14.11.17

fim do ano

JÁ ESTAMOS NO FIM DO ANO. E você continua aí, do mesmo jeito, andando pelas mesmas ruas, girando as mesmas chaves para abrir as mesmas portas? Sentado nas mesmas cadeiras, ao lado das mesmas mesas, fazendo sempre as mesmas coisas? Com os mesmos amigos, os mesmos amores, a mesma visão do mundo? Com os mesmos medos e preconceitos? Abraçando as mesmas pessoas, tocando os mesmos corpos, com o mesmo jeito, os mesmos toques, e o mesmo estilo? A mesma instável estabilidade? Repetindo a mesma angustiante rotina? Onde está aquele maravilhoso projeto de Vida?! Onde está a coragem de mudar, a coragem de criar? Onde aquele entusiasmo e aquela ousadia de outrora? Onde aquela gostosura tão buscada? Onde estão aqueles sonhos todos?

12.11.17

spaghetti alla Jesus

Jesus não era vegetariano, pois adorava tagliatelle a Bologna. Mas, em noites mais amorosas, preferia spagheti al sugo. Está lá no Evangelho de Paritosh Keval. Como todo mestre zen, Jesus também cozinhava. Jesus também era humano… Depois do amor a dois, Madalena ainda rolando satisfeita nos tapetes da sala, Jesus ia pra cozinha, preparar um macarrão. Barilla. Pomodori pelati. Parmesão recém-ralado. Cabernet Sauvignon. Se não tivesse, ele pegava do pote... E assim a noite continuava — cada vez mais iluminada. Cada vez mais amorosa e brilhante. Divina.

10.11.17

marasmo

Você não acha que faltam grandes emoções na tua vida? Não seria bom que acontecesse, ainda hoje, alguma coisa gloriosa, diferente, só pra sacudir esse marasmo?

8.11.17

caixa de metaforas

Quando levei meu fogo aos Céus, já sabia de antemão que haveria generosa recompensa. Zeus, em sua infinita bondade, mandou-me ontem, numa carruagem de luz, uma enorme caixa de presentes. De dentro dela sai, antes de tudo, o arquétipo da mulher inconquistável, já Vera e já dizendo:

— Prometeu, venho te ajudar no deslinde das metáforas, uma vez que é a solene forma de me representar para você. O Ballantines é o espaço provisório de abandono à lucidez impertinente. A caixinha de marfim é a minha, original, só que vazia, pois a esperança é perigosa e já voou. A borboleta azul, sabonete perfumado, espumas, Afrodite, remete ao seu post que amei dias atrás. A canequinha de prata, dançarina num pires mitológico, é a infância: desejo de salvar a criança em seu papel de menino Zeus na minha história — bem desempenhado. A peça do jogo de xadrez, é um cavalo em pedra-sabão, cheque mate (vivo e suado) de intensa concentração no galopante jogo-dança da vida. Os chocolates indianos, afetos meditativos. E Etta James, dizendo I'd rather go blind (prefiro ficar cega), cantando com força e voz cênica vinda do fundo edipiano da alma.

— E as conchinhas? — resolvo perguntar.

— As conchinhas, meu querido, as cinco conchinhas são as mais importantes nesta caixa que te entrego. Mas seu significado fica por tua conta, porque nunca entrego tudo de mão beijada. Você é perspicaz, pensa muito e sempre antes. Então, aumente as duas doses de Ballantines nesta noite semiótica, e decifre o que faltar. "O álcool nos torna lúcidos", lembre-se. Aliás, esta é a questão primordial de todas as metáforas.

Ela fala tudo isso e se vai. Então, só me resta ficar aqui, pensando, inundado de Pandora, de luar, de Vera e gostosura. E bêbado de mim.



Zeus mandou-me a Caixa por Sedex, e Vera, mentalmente, me ditou os dois parágrafos em itálico.
Tudo que aqui escrevo é baseado em fatos reais.

2.11.17

vo vitalina

Fuja das pessoas raivosas, estude bastante — e mantenha os pés quentes.

Conselhos da Vó Vitalina.

28.10.17

deslouco

Eu só me desloco no espaço se o ponto de chegada for melhor que o ponto de partida.

26.10.17

barco a deriva

Adoro viajar neste maravilhoso barco à deriva que virou minha vida. Sem bússola e sem mapas. Mas também sem medo e sem pressa — e isso faz toda a diferença. Para escrever meu destino, aprendi a ler os sinais que vêm do céu e os sinais que vêm das ondas. Quase sempre eu me guio pela experiência divina, pela Lógica, pelo vento, e pela Lei das Probabilidades. E se até hoje não me afundei, nunca mais me afundarei.

23.10.17

lambari

Por causa de um simples lambari, o pescador às vezes se molha da cabeça aos pés.

22.10.17

pes no chao

Procuro viver sempre com os pés no chão — desde que o chão esteja no Pico.

21.10.17

eu te amo

Eu te amo quando não preciso mais dizer te amo.
Eu te amo quando reconheço teu Direito de Fazer Escolhas.
Eu te amo quando respeito tua própria liberdade tanto quanto a minha.
Eu te amo quando compreendo tua vontade de às vezes ficar só.
Eu te amo quando não te sufoco com chiliques ou pressões.
Eu te amo quando ponho afeto entre as nossas distâncias.
Eu te amo quando aplaudo os teus desejos de voar.
Eu te amo quando me convenço de que o ciúme é o câncer do amor.
Eu te amo quando te ajudo a ser mais livre do que eras quando eu te conheci.
Eu te amo quando a recíproca a tudo isso também é verdadeira.

17.10.17

pobreza

Passei anos tentando alcançar a pobreza. Acabo de concluir que não consigo. Desisto.

15.10.17

O Professor

O Professor

A tabuada não basta. Como não bastam funções hiperbólicas, variáveis complexas, orações subordinadas. Não bastam Euclides e sua geometria, não bastam as teorias. O professor deve ensinar ao aluno a arte de viver com dignidade, com amor, com liberdade.

Não basta falar das guerras, das batalhas, das conquistas — tem que ensinar o aluno a conquistar-se primeiro a si próprio. Ensinar-lhe medir distâncias é pouco — necessário vencê-las. Não basta saber o nome dos rios, temos que fluir. Equações algébricas não resolvem tudo, antes é preciso resolver-se. Em vez das mentiras históricas, o professor deve ensinar as verdades, e o melhor modo de encontrá-las.

Não basta falar de política, o professor tem que ser democrata. Deve olhar nos olhos do aluno e dizer-lhe como a vida é. Aumentar-lhe a coragem de crescer. Ensinar-lhe a lógica das emoções e o amor pelo raciocínio. O professor transmite sabedoria, incentiva o bom senso e o bom gosto. Mergulha fundo no oceano de dúvidas que o aluno tem no coração, e traz o tesouro pulsante lá submerso. Educa, orienta, aviva a chama na consciência de cada. Ao polir a pedra bruta consegue intenso brilhante. Bom professor é aquele que não exige, não cobra — obtém. Não corrige — mostra o porquê. Não hesita quando avalia, não constrange quando examina. E nunca faz da nota uma espada.

O bom professor não só ensina, compreende. Não levanta a voz, amplifica o verbo, convence. É sério — mas ri da própria seriedade. Fala do êxtase, da alegria e da profunda emoção que explode no seu peito quando ensina, como pétalas no riso de quem ama.

O professor mostra ao aluno a diferença entre o silogismo e a serpente. Ensina-o a extrair raiz quadrada com poesia. Demonstra como ser ousado sem ser burro. Jamais abusa da confiança do aluno, não lhe invade o espaço, não procura condicioná-lo. Não cria relações de dependência, nem exerce dominação sádica sobre ele. Infunde-lhe o respeito absoluto pela vida. Prefere o aluno criativo ao bem-comportado. Nunca o explora, é só o conquistador de um novo mundo, que leva o aluno a ver mais — mais alto e mais longe.

Não levanta paredes em torno do aluno, e sim derruba aquelas que houver. Abre-lhe as portas da vida, com veemência. Não o repreende, não o censura, não o recrimina. Mostra ao aluno a importância da inteligência na determinação do seu futuro. O velho dilema entre a caneta e a vassoura...

Como Sócrates, o bom professor não vê glórias no que sabe, não esconde o que conhece, nem oculta o que possa não saber. Brinca, tem confiança em si, e não faz da escola uma cela.

Moderno, convence o aluno a saltar os muros da tradição, porque a aventura está sempre do outro lado. Lógico, respeita aquele que aprendeu a questionar. Não o sufoca com preconceitos nem com juízos de valor. Nem lhe causa medo algum. Transmite confiança, pega na mão, aplaude, incentiva, suporta, conduz, ampara na travessia. Não é hipócrita, faz o que diz e diz o que pensa. É um farol que não vela o que descobre. Mostra um caminho. E não apenas mostra — demonstra, comprova, define.

Aranha em teia de luz, o professor não prende — liberta. Carrega o giz como fosse uma flor, com amor. E quando faz a linha tem firmeza, mas não separa. Ora Dali, ora Picasso, vai colocando a tinta, pondo seu traço, amando seu gesto, compondo a canção. Enaltece o risco do sonho, o círculo do fogo, a pureza da alma, o princípio da vida, o anel da esperança.

Considera o aluno obra de arte quase inacabada. Ama-o como se fosse um anjo. E nunca vai matar-lhe no peito a vontade de ser livre.

O professor é o amigo sincero que ajuda o aluno a superar os limites da vida, desbravando com determinação e ousadia essa fantástica região chamada Experiência.

Enfim — o professor é o Mestre.


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7.10.17

todos os prazeres

Todos os prazeres que tenho vivido nos últimos anos se devem ao meu irrestrito Amor pela Liberdade. Se devem à minha vontade absoluta de ser livre, e à extrema capacidade que tenho de satisfazê-la. Contudo, se eu não tivesse reagido a tempo, com vigorosa determinação, hoje provavelmente estaria casado com aquela tonta que me queria escravo. Ou estaria morto — o que é quase a mesma coisa. Queria, aquela infeliz, colocar grades no meu crepúsculo, e abri-las só quando ele fosse berrante, se a cor fosse correta, e se tivesse plumagem. Caso contrário, a chave da prisão continuaria em seu poder, pendurada numa correntinha de ouro, no pescoço da desgraçada. Ela dizia me amar, mas queria mesmo era ser a minha dona. Naquilo que nós dois concordávamos, ela dizia que eu estava cem por cento certo. E naquilo que discordávamos, ela garantia que eu estava cem por cento errado! Como se vê, ela não tinha o menor respeito, nem por mim — nem pela Lei das Probabilidades.

Essa pessoa a que me refiro no texto acima é uma personagem do meu livro Solidão a Mil — mas pode ser real também. Existem pessoas assim. No fundo, são autoritários que se cobrem com um manto grosseiro de justificativas absurdas: dizem que têm "personalidade forte"... Ora, quem tem personalidade forte, mesmo, nunca reage dessa forma autoritária. Quem tem personalidade forte, realmente, aceita argumentos eventualmente contrários, e se dispõe a discuti-los. Aliás, aceita até mesmo questionar os próprios. Em nome da Lógica, do bom senso — e da elegância.

6.10.17

livros que estou lendo

Livros que estou lendo. Na ordem em que estão, e na desordem em questão: Sexteto: Henry Miller. Por Amor a Freud: Diane Chauvelot. Hipnodrama e Psicodrama: Moreno. Ser Feliz faz parte do meu Show: Joyce Ann. O Espelho Mágico: Gairarsa. Biografia de Nietzsche: Daniel Halevy. Memórias Sonhos Reflexões: Jung. A Importância de Compreender: Lin Yutang. Ócio Criativo: Domenico De Masi. Grandezas e limitações do pensamento de Freud: Fromm. A Anarquia da Fantasia: Werner Fassbinder. Solidão a Mil: Edson Marques. O Manifesto do Surrealismo vai servir de inspiração para escrever o texto de amanhã. Muitos ficaram fora da foto, porque estão espalhados pela casa. Mas, cito três outros que estão aqui ao meu lado: "Picasso, o sábio e o louco", de Marie-Laure Bernadac; "Trópico de Câncer", de Henry Miller, e "As Paixões segundo Dali", de Dali/Pauwels. No banheiro está o Alan Watts, "Em meu próprio caminho" - rabiscadíssimo. Na cozinha, "O Eu Dividido", de Ronald Laing, e "Jesus: ensinamentos essenciais", de Anthony Duncan. Tem mais na sala, nos quartos, nos corredores, e no carro. /// A bonequinha nua sobre os livros é um presente de Rose, e o quadro ao fundo é uma releitura de Modigliani, feita por Joyce Ann. E, como disse Felipe Fanuel em seu comentário, eu leio "a partir da boneca, a partir da pintura, ou seja, a partir da arte".

2.10.17

eu preciso

Eu detesto relações ordinárias. O que é comum tem um poder impressionante de jamais me impressionar. Eu preciso é de êxtase. Eu preciso de alegria, de sonhos, de encantos profundos. Eu preciso de companhias brilhantes. De pessoas que vibrem a todo momento, como se a todo momento fizessem amor. Como se aqui fosse o céu... Porque aqui é o Céu.

1.10.17

reparto tudo

Reparto tudo: reparto o beijo, o abraço, a lua, o chocolate, o pão e o queijo; reparto o amor e o vinho, as flores e as estrelas. Reparto e compartilho. Tudo. Às vezes, simultaneamente... Reparto, com muito mais ênfase ainda, a felicidade, a alegria e o prazer. Porque essa coisa de relação fechada possessiva é lamentável. É uma coisa que eu suponho ultrapassada — pelo menos nas sociedades mais desenvolvidas. Ou, melhor, naquela parte culturalmente mais desenvolvida das sociedades. Essa coisa (ciúme, posse, etc.) na verdade é um horroroso "negócio": Aquilo que nega o ócio. Nega o prazer, e nega o amor. Nega a liberdade.
Portanto, se você não encontrar razões para ser livre, invente-as.
E viva a Vida.
Ou não.

27.9.17

amizade amor

A amizade nunca impõe restrições aos atos do outro, nem constrói barreiras para impedir o crescimento do ser amado. A amizade pressupõe compreensão absoluta. Confiança irrestrita. E assim também deveria ser o amor. O verdadeiro Amor. Sabe, depois de ter amado tanto e estar amando ainda mais; depois de conhecer — inclusive no sentido bíblico — milhares de pessoas, eu acabo concluindo que o Amor só acontece em sua plenitude numa deliciosa relação de amizade.

Mas uma amizade coloridíssima, daliniana, picassante!


Tentarei me explicar.

Já imaginou passar a vida toda com um amigo só?! Já imaginou assinar um documento se comprometendo que só vai ter esse amigo pelo resto da vida? Almoçar só com ele, jantar só com ele, ir ao teatro, ao cinema, à praia — só com ele! Viajar só com ele — e só se ele permitir! Dormir ao lado dele todo dia, na mesma cama! Conversar sobre os mesmos assuntos, ver os mesmos programas de tv, entediar-se mutuamente — todo dia!


Ah... a amizade com certeza não resistiria...


Então, por que você acha que o amor é capaz de resistir?

24.9.17

fim do ano

JÁ ESTAMOS NO FIM DO ANO. E você continua aí, do mesmo jeito, andando pelas mesmas ruas, girando as mesmas chaves para abrir as mesmas portas? Sentado nas mesmas cadeiras, ao lado das mesmas mesas, fazendo sempre as mesmas coisas? Com os mesmos amigos, os mesmos amores, a mesma visão do mundo? Com os mesmos medos e preconceitos? Abraçando as mesmas pessoas, tocando os mesmos corpos, com o mesmo jeito, os mesmos toques, e o mesmo estilo? A mesma instável estabilidade? Repetindo a mesma angustiante rotina? Onde está aquele maravilhoso projeto de Vida?! Onde está a coragem de mudar, a coragem de criar? Onde aquele entusiasmo e aquela ousadia de outrora? Onde aquela gostosura tão buscada? Onde estão aqueles sonhos todos?

21.9.17

olhe para os lados

Agora mesmo, onde você estiver, olhe para os lados. Ajuste a consciência, apure a sensibilidade, abra seu coração, respire fundo, olhe para os lados outra vez, e responda-me, sinceramente: — As pessoas com as quais você hoje convive (em casa, na escola, no trabalho ou na internet) são amorosas, compreensivas, inteligentes, excitantes, audaciosas, livres, saudáveis, brilhantes, honestas, sensíveis, delicadas, independentes, e cheias de entusiasmo pela vida?
São?!
Porque, se assim não forem, responda-me:
— O que é que você continua fazendo aí?

19.9.17

nao espere

Não espere a próxima primavera para sentir o perfume de todas as flores.

Amanhã pode ser tarde demais...

17.9.17

minha mae casou

Nós nos separamos no pico. Era preciso que nós nos separássemos no pico, porque...


...Musa com algema no dedo anular vira esposa. Com o tempo, desencanta. Por isso, não desperdice a musa: não queira casar com ela. Formalizar as aventuras é o mesmo que contratar o Desespero. O casamento pode ser o túmulo do Amor. É um risco enorme... Valerá talvez a pena ser corrido? Não sei. Mas não queira engaiolar a exuberância. Não engarrafe as emoções. Não sufoque a liberdade. A menos que você já tenha feito a opção por repetir as relações antigas, e tornar-se apenas um reprodutor da espécie… Claro que reproduzir a espécie também é uma tarefa digna, e pode ser até gratificante, em certos casos. Mas não tem nada a ver com Aventura e Liberdade.


O casamento é o cemitério das Paixões!
Minha mãe e meu pai se casaram na igreja...



Como se vê, a Vida é um mistério delicioso!



Mas é preciso lembrar que eu mesmo já casei umas seis ou sete vezes. E todas foram experiências maravilhosas. Talvez porque o projeto nunca foi geração de prole, nem de contribuir para nenhuma estatística. Sabíamo-nos passageiros e assim nos comportávamos. Sempre houve um respeito absoluto pela própria liberdade e pela liberdade do outro. E, em cada um deles, nos separamos no pico da relação. Talvez isso tenha feito toda a diferença. A paixão nunca chegou a esfriar!




Hoje é aniversário de Joyce Ann.
Das nove musas que me inspiram, ela é a principal.




16.9.17

quando o bom faz mal

Um grande amor ou um bom emprego acabam complicando muito a vida de quem os consegue logo no início. Porque você vai ficar se agarrando a eles pro resto da vida — e perde a chance de conseguir outros iguais, ou até melhores. Perde a chance de vivenciar outras experiências, provavelmente maravilhosas. Mas, o que é pior: essa aparente estabilidade inicial te enche de medo. Medo de perder. Medo de não ser capaz de crescer, nem de superar uma perda. Então, só te resta encolher-se no teu próprio coração medroso e bobo, abraçado a um bom salário — ou deitadinho no colo desse amor minguante...

13.9.17

swing estrela

Eu tinha um cavalo chamado Estrela e um cachorro chamado Swing. Ambos nasceram no mesmo dia em que eu, e meu pai fez questão de comprá-los para mim. E eu sempre os aceitei como eles eram. Nunca quis promover o Estrela a alazão espanhol, nem o Swing a pit bull. A mim bastava a meiguice do cavalo baio de olhos doces, e o pequeno vira-lata deitadinho no meu colo. Os dois eram compreensivos e amorosos. Mesmo assim, morreram ambos. É a vida.

10.9.17

idade mental 17


A idade mental dos meus amores é sempre dezessete. 

A cronológica não tem a mínima importância.

7.9.17

independencia

Viva a Independência.
A dos países e a das pessoas.
A independência política, a financeira, e a emocional.
A do Corpo e a do Espírito.
A dos amigos — e a dos amores.

Só é livre quem for independente.

PORTANTO, INDEPENDÊNCIA — OU MORTE!

6.9.17

perfume no travesseiro

Ontem à noite eu percebi que Joyce Ann, sussurrando como se rezasse, fez uma longa declaração de amor ao meu travesseiro preferido, azul clarinho. Depois de abraçá-lo com ternura e beijá-lo várias vezes, ela derramou duas gotinhas de perfume sobre ele, e foi colocá-lo delicadamente em minha cama. Por isso é que, mais tarde, quando me deitei, sozinho no meu quarto, fui envolvido nas palavras todas que ela deve lhe ter dito, e sonhei antes mesmo de fechar meus olhos...

Se você ainda não viveu um grande amor assim, saia correndo agora mesmo em busca dele.

5.9.17

jardim que falo

Eu modifico perfumes e delícias em palavras e velas — e planto meu verbo num jardim que fala. Há um canteiro de ternuras e de flores no meu corpo ensolarado. Por isso é que transformo em arrepios o que me pede a Natureza a todo instante.

4.9.17

sinto amor

Culpa, medo, ódio, preguiça, vergonha, ciúme ou rancor: — eu não sinto nada disso...
Eu só sinto Amor!

E você?

3.9.17

29.8.17

toques e clicks

Se você não vier me ler agora nada mais aqui fará sentido. São teus dedos e toques e cliques que me acordam duplamente a todo instante. Há uma doce cumplicidade entre a minha e a tua gostosura. Essa voz que canta e dança em minha língua portuguesa é tua, assim como tua é a boca vermelha que escancara os meus gritos de amor e liberdade. São teus olhos diamantes que transformam os meus textos em sagradas escrituras. São teus os lábios deliciosos que conjugam o Verbo Coração no céu da minha boca.

Sem você, eu fico mudo.

26.8.17

no armazem do pai

NO ARMAZÉM DE MEU PAI

Varrendo os ciscos, os papéis, as tampinhas de garrafa, todo dia, eu aprendi a amar a limpeza, mas não de forma neurótica. Varrendo, aprendi a ter disciplina. Eu só tinha nove ou dez anos, mas já varria com método, coreografando uma espécie de dança com a vassoura, meditando, desenhando na poeira coisas que combinassem com as irregularidades daquele chão. Varrendo, eu planejava a minha vida. Varrendo ciscos geométricos por sobre os cacos coloridos da cerâmica vermelha eu construía uma louca arquitetura de mistérios insondáveis. E então chegava um cliente querendo talvez meio quilo de açúcar. Ou duzentos gramas de mortadela. Às vezes um pão sovado. Não importava: em qualquer das hipóteses, antes de atendê-lo, eu me transformava no Balconista do Olimpo — e o atendia sorrindo. Ou seja, varrendo e vendendo, eu aprendi a perceber padrões. A interpretar as circunstâncias. Varrendo e vendendo, eu aprendi a ser cigano, a ler as mãos — e ver a Sorte.