25.2.17

carnaval

Às vezes, referindo-me ao Carnaval, eu digo que sou contra "alegria com hora marcada" — mas preciso fazer uma ressalva. Carnaval é coisa de amadores, sim. Daqueles que só tiram a fantasia nesses quatro dias, e depois voltam a vestir suas armaduras da normalidade. Porém, como qualquer festa em que haja música e dança, sexo e alegria, o carnaval merece o nosso respeito, se não o nosso apoio. Embora seja alegria com hora marcada, defendo esse momento de festa. Mesmo porque alegria com hora marcada é bem melhor do que alegria nenhuma. Além do mais, especialmente no Brasil, o carnaval torna-se a Sagração da Sensualidade. O elogio da Safadeza Bacante. A veneração do desbunde. A consagração do amor livre. Um belo tributo dionisíaco à dança. A glorificação do Corpo. Portanto, viva o Carnaval... Viva o Bacanal!

23.2.17

eu preciso

Eu detesto relações ordinárias. O que é comum tem um poder impressionante de jamais me impressionar. Eu preciso é de êxtase. Eu preciso de alegria, de sonhos, de encantos profundos. Eu preciso de companhias brilhantes. De pessoas que vibrem a todo momento, como se a todo momento fizessem amor. Como se aqui fosse o céu... Porque aqui é o Céu.

22.2.17

amor no pico

Nossa obrigação moral é deixar o grande amor no Pico. Se ele terá condições de permanecer aqui — isso já não depende mais de nós.

21.2.17

alexandre

Alexandre, o Grande, com menos de 40 anos já tinha conquistado o Mundo.
Mas, com menos de 50 já estava morto...
Será que adianta?

Reformulando, para que seja melhor compreendido. Claro que tem gente que morre antes dos 50 sem ter conquistado coisa alguma. Mas não é esse o foco do meu texto. Eu aqui me refiro ao desapego como algo superior à ganância. Nesse aspecto eu me lembro de Diógenes preferindo o sol à sombra de Alexandre. Eu me lembro de Jesus e Henry Miller. Eu me lembro de mim (que fico escrevendo ensaios e contando histórias em vez de construir uma casa) e também de você (que encontra tempo para ler poesias, em vez de seguir o rebanho dos que se estressam).

19.2.17

todos os prazeres

Todos os prazeres que tenho vivido nos últimos anos se devem ao meu irrestrito Amor pela Liberdade. Se devem à minha vontade absoluta de ser livre, e à extrema capacidade que tenho de satisfazê-la. Contudo, se eu não tivesse reagido a tempo, com vigorosa determinação, hoje provavelmente estaria casado com aquela tonta que me queria escravo. Ou estaria morto — o que é quase a mesma coisa. Queria, aquela infeliz, colocar grades no meu crepúsculo, e abri-las só quando ele fosse berrante, se a cor fosse correta, e se tivesse plumagem. Caso contrário, a chave da prisão continuaria em seu poder, pendurada numa correntinha de ouro, no pescoço da desgraçada. Ela dizia me amar, mas queria mesmo era ser a minha dona. Naquilo que nós dois concordávamos, ela dizia que eu estava cem por cento certo. E naquilo que discordávamos, ela garantia que eu estava cem por cento errado! Como se vê, ela não tinha o menor respeito, nem por mim — nem pela Lei das Probabilidades.

Essa pessoa a que me refiro no texto acima é uma personagem do meu livro Solidão a Mil — mas pode ser real também. Existem pessoas assim. No fundo, são autoritários que se cobrem com um manto grosseiro de justificativas absurdas: dizem que têm "personalidade forte"... Ora, quem tem personalidade forte, mesmo, nunca reage dessa forma autoritária. Quem tem personalidade forte, realmente, aceita argumentos eventualmente contrários, e se dispõe a discuti-los. Aliás, aceita até mesmo questionar os próprios. Em nome da Lógica, do bom senso — e da elegância.

17.2.17

poesia e liberdade

Só tenho poesia e liberdade, meu amor. Portanto, se você quer exclusividade, procure no Google.

16.2.17

borboleta

A transformação mais maravilhosa não é a da lagarta em borboleta, mas sim a da própria borboleta em borboleta livre.

15.2.17

rosa de amsterdam

Eu quero mesmo é retirar o vermelho de uma rosa de Amsterdam — e pintar com ele as minhas tardes como esta. Eu quero é retirar um pouquinho do azul que me trazem os olhos loucos deste Amor, e depois tingir com esse tanto as minhas noites de luar.

Eu só quero o lado lúdico da coisa, e o lado lúbrico dos dias. Se são úteis, não quero me aproveitar nunca dessa santa e vã utilidade.

No fundo, aqui e agora, eu só quero VIDA — nada mais.

Nada menos.

14.2.17

profundo da vida

Só quem salta inteiro no belo azul profundo da Vida é que pode brilhar de verdade.

12.2.17

viver no meu canto

Algumas pessoas querem que eu seja como Caio, Clarice, ou Cazuza. Querem que eu primeiro morra — para então ficar famoso. Mas que ideia ridícula! Nem pensar... Recuso a sugestão. Prefiro viver assim, quieto no meu canto e minha dança, pleno de alegria e liberdade, tomando vinho branco ou colorido, entre pássaros cantantes, lírios quase brancos, e amores transversais. Afinal, a vida é melhor que a fama. Muito melhor.

11.2.17

amores anteriores

Meus amores anteriores é que me fizeram assim. Com sua paixão infinita, com seus beijos delicados, suas mãos escandalosas, com seus cremes e carícias, seus afagos e ternuras — todos eles me fizeram melhor. Com sua compreensão racional e carinhosa, com seu respeito absoluto à Liberdade, todos me ensinaram coisas novas, belas e profundas. Todos me deram energia, me amaram com doçura e de verdade, me esculpiram. Conforme meu desejo e meu destino, prepararam o meu corpo e minha alma — só pra te encontrar. Agora cabe a você completar esta obra de arte romântica...

10.2.17

vida curta

Se a vida se encurta por nossa causa, temos que reagir. Sêneca dizia que a vida não é curta: nós é que a tornamos — e a desperdiçamos quase sempre em afazeres inúteis, supérfluos, banais, secundários, desprezíveis.

Se você aproveitasse o tempo enorme que perde no trânsito, no trabalho alienado, na educação dos filhos, nas reprimendas aos escravos, nas conversas hipócritas, na fila do banco, no ônibus, no metrô, no avião, na internet; se aproveitasse o tempo que perde vendo tv, ou em papos furados ao telefone; em agendas ridículas, reuniões absurdas, conflitos de família, salamaleques, sermões e orações; se você não precisasse gastar um tempo enorme corrigindo as barbaridades que comete contra si mesmo; se não precisasse ficar se explicando a toda hora para o patrão, para a patroa, para os pais, para os filhos, para os namorados — e para a consciência...

Se não gastasse eternidades tentando encontrar uma saída nesse buraco em que se meteu por descuido; se fosse um pouco mais esperto, um pouquinho mais inteligente; enfim, se você usasse o cérebro e fosse livre de verdade — e independente — a vida não seria tão curta...

Cento e vinte anos de prazer absoluto bastariam!

9.2.17

minha proposta

Minha proposta é a Liberdade Absoluta. Eu venho é para semear razões, quebrar paradigmas, romper limites e derrubar padrões. Não trago nenhuma resposta pronta: só faço perguntas. Eu quero é mexer no coração da tua cabeça, carinhosamente. Fazer um delicioso cafuné nos teus neurônios enrolados. Passar um pente fino nos caracóis da tradição. Quero questionar tuas verdades mais queridas. Chacoalhar tuas convicções inabaláveis. Não vim, portanto, te propor sossego — nem venho te trazer a paz cansada... Eu te convido a ter coragem. Eu te convido a um salto profundo. Um salto escandalosamente profundo em direção à Vida.

8.2.17

rolling stones

Rolling Stones

As pedras rolantes são polidas pela própria natureza.

Pedra que não rola fica bruta. Cria musgo. Portanto, seja natural. Deixe-se rolar, livremente. Não estacione. Siga o curso sinuoso das águas vivas. Seja fluente na correnteza da vida. A felicidade é líquida. O verbo é um fluxo. A palavra amor é vibrante. Quem não muda não fala. Quem não muda não dança. Mude. Grite. Dance. Voe.

6.2.17

frases 212 229

‎211. Aceitar o inevitável é uma sábia decisão.
212. O auge de uma paixão está sempre no começo dela.
213. Não espere a graça do cisne no pescoço de um pato.
214. Em vez de salvar a relação, eu prefiro salvar o meu Amor.
215. Só tem uma coisa pior do que morrer: é viver pouco.
216. Sempre danço conforme a música. Mas, antes, escrevo a partitura.
217. Toda emoção é produto de um raciocínio.
218. Quem jura amor eterno deveria ser processado por estelionato emocional.
219. Toda musa já traz uma víbora dentro de si. É só uma questão de tempo.
220. Dispenso a compreensão daqueles que não conseguem me compreender.
221. Se, numa relação de amor, a verdade entristece — minta com alegria.
222. Prazer não sentido é prazer perdido. Irrecuperavelmente perdido.
223. Se o amor não pode ser livre, não deve ser nada.
224. Ceder uma vez só é muito mais difícil do que ceder nunca.
225. É um desperdício imperdoável ter um grande coração, e deixar nele um único amor.
226. A capacidade de questionar as próprias convicções é um atributo dos seres mais elevados.
227. Eu não vejo o cotidiano: eu vejo a eternidade.
228. A melhor realidade é aquela que nasce de um sonho.

5.2.17

porrada no maldoso

Se todo mundo que pretender fazer maldades tiver a certeza do perdão sem a porrada — o mundo vira uma zona. Toda ação tem consequência. E fazer o mal tem que ter risco!

4.2.17

hipotese

O fato de ser eu o autor de uma hipótese não lhe garante a condição de verdade.

3.2.17

meu pai e os girassois

MESTRE ZEN COM VARA DE MARMELO

Meu pai era racional demais, disciplinado demais, e ético demais. Dominava o cálculo, era íntimo dos números, ensinou-me a tabuada do 13 quando eu tinha sete anos. Quem não sabe a tabuada se fode, ele me dizia. Nasceu para o comando. Era dono de uma violência verbal impressionante — e nunca deixava pra depois as broncas que pudesse dar. Exagerado, tinha seus momentos de loucura: de vez em quando mandava fazer almoços festivos para crianças pobres. Era comum se reunirem duzentas ou trezentas em nosso restaurante. Absteve-se do jogo, não fumava, mas bebia um pouco mais do que eu supunha o certo. Com duas exceções, nunca o vi de fogo. Ele nunca nos disse que gostava de poesia, mas certa vez mandou que plantassem trezentos e sessenta pés de girassol no fundo do quintal da nossa casa. Depois que as plantas cresceram, ele ficava toda tarde um tempão lá no fundo, sentado num banquinho improvisado de madeira, sorrindo, encantado, tomando vinho vermelho — e olhando os girassóis girarem... Meu pai, portanto — e no fundo — talvez não fosse apenas um simples comerciante atarracado e ex-delegado de polícia. Talvez fosse um poeta. Pena que não teve tempo de ficar completamente louco: morreu aos 49, por erro de um médico que tinha a morte até no nome.

2.2.17

risco sinuoso

Deverei assumir o risco sinuoso dos projetos fascinantes, ou deixar que se esmaguem no meu peito essas paixões enlouquecidas? Continuo abraçado como sempre à gostosura da surpresa, ou me derreto em nome de pecados que nem fiz? Deverei permitir que as vontades puras que hoje tenho em mim sejam cada vez mais satisfeitas, ou submeter meu coração apaixonado às regras neuróticas daqueles que ainda nem sabem amar? Assumirei o compromisso luminoso com essa estética erótica que permeia minha existência — e a torna melhor — ou devo aceitar a proposta de retorno ao passado que me dão de presente? E onde então vou colocar o futuro brilhante que trago em mim? O que fazer com a negação persistente da minha pureza? Terei forças para vencer a fraqueza? Continuarei sendo o fogoso corcel negro em disparada absoluta, ou conseguirão eles (os moralistas, os conservadores, os donos da força bruta...) fazer com que morram, por perigosas, essas paixões que me libertam? Saberei manter as dúvidas enquanto caminho dançando por esta deliciosa tempestade de emoções?

1.2.17

e a vida

Tem gente que nasceu pra ser inteiro. Tem gente que nasceu pra ser metade.

É a vida.

31.1.17

metade do infinito

Hoje é terça-feira. Hoje eu não quero muita coisa. Por isso vou ficar ali na praia, conversando com Netuno, tomando água de coco, olhando sereias, catando conchinhas e sentindo os lábios de Afrodite lamberem-me os pés... Hoje eu não quero muita coisa. Hoje é terça-feira. Hoje eu só quero abraçar a metade do infinito...

A metade mais gostosa do Infinito.

30.1.17

micro separacoes

Nos relacionamentos "amorosos" tradicionais, monogâmicos, fechados, as pequenas brigas (com mais ou menos intensidade, com mais ou menos frequência) são o paliativo que o sistema encontra para que a ilusão de harmonia se mantenha. Sem essas micro-separações ilusórias, os casais certamente não se suportariam, um ao outro, por tanto tempo. Portanto, do ponto de vista psicológico, essas brigas acabam tendo uma função terapêutica importante.

Vou pensar um pouco mais nesse tema.

28.1.17

mirada da ponte

Há dias, como hoje, em que nos debruçamos na murada da ponte e o rio nos chama, inflamante. Não para a morte — porque a morte é sempre ridícula — mas para a vida. Nos chama, como se as águas tivessem mãos acesas que nos acenam, convite amoroso para fluirmos com elas em direção ao profundo oceano dançante das aventuras infinitas...

27.1.17

sempre que eu sumo

Sempre que sumo por dois ou três dias, não se preocupem, meus amigos. Jamais pensem que despenquei na Serra do Mar, ou que me afoguei no Rio Nilo... Pois é provável que eu só esteja me deliciando nos braços adoráveis de um novo grande amor!

26.1.17

bilhete sem foto

Tem dias que eu varo a noite tomando vinho com ela e Zaratustra. O computador ligado, e a tela descansando à beira-mar. Mas de madrugada, o sol quase raiando, o velho Nietzsche desabraça o belo cavalo negro da Razão — e ficamos ali, só nós dois, eu e ela. Então escrevo um bilhete azul-clarinho que deixo pregado no espelho da sala, e também me vou:

Assim como o andarilho tem que afastar-se da cidade para perceber a altura das suas torres, eu também devo às vezes afastar-me de quem amo — só pra perceber o tamanho desse amor...

25.1.17

abandone-me no pico

Abandone-me no Pico, por favor. Não permita que eu despenque — agarrado ao teu Amor.

24.1.17

colonia de deusinhos

Dizem que havia uma colônia de vermezinhos graciosos no fundo de um lodaçal. De vez em quando, alguns subiam à superfície e nunca mais voltavam. Isso deixava perplexos aqueles que permaneciam. O que será que tem lá em cima, que tipo de perigos pode haver? — eles se perguntavam. Até que certo dia um deles acordou, pôs as duas mãos no coração e prometeu sinceramente aos seus irmãos: Vou subir e depois volto para contar a vocês como é o mundo lá em cima. Preparou-se bem, leu Osho e Henry Miller, armou-se de inocência e de coragem, aguou suas plantinhas, atualizou o Facebook, despediu-se dos amores, desfez as malas — e subiu. Ele tinha mesmo a intenção de voltar. Mas, assim que chegou à superfície, viu Luz, transformou-se numa libélula, abriu as DUAS asas — entusiasmou-se! — e voou alegremente para o azul anil do céu profundo... E agora já não pode mais voltar. Morreria se voltasse...

Certas promessas jamais serão cumpridas.

23.1.17

jogo de xadrez

Quando você arrisca num determinado projeto, seja ele comercial ou amoroso, você calcula antecipadamente a probabilidade de vitória — ou joga a esmo, simplesmente?

22.1.17

somos diferentes

Éramos diferentes.

Eu gastava tudo — eles poupavam.
Eu tomava vinho — eles bebiam cerveja.
Eu amava livremente — eles se envolviam com ciumentos.
Eu era um poeta louco — eles eram respeitáveis.
Eu criava conceitos — eles adoravam as coisas.

Enquanto eu fazia amor, eles faziam filhos.
Enquanto eu fechava os olhos, eles vigiavam.
Enquanto eu estudava e dançava, eles cuidavam da prole e do cônjuge.
Enquanto eu viajava sem destino, eles faziam seus planos e desenhavam seus mapas.
Enquanto eu saltava profundo, eles viam novela.

Tudo tem seu preço.

Por isso hoje eu vivo aqui, sozinho — e não tenho nada além de amores.

Mas eles ainda se amontoam, brigando por inventários e calculando seus haveres...

Não seria justo, portanto, que Deus nos desse agora as mesmas dores.

Somos diferentes.

E não tenho culpa se além de loucura Deus me deu Razão — e continua dando.

21.1.17

meus dias

Eu sonho tão alto que o próprio barulho me acorda.

Já me acordo com Deus perto.

E me desperto dançando e perguntando se há no mundo melhor coisa que ser feliz e ser saudável. Vejo estrelas no meu teto, repito a oração como se reza, e me espreguiço felino, suave, amoroso, sorrindo — e gostoso!

Mas me levanto só depois que gargalho. Se por acaso não acho motivos pra gargalhar, também não os acharei pra levantar...

Enquanto isso, faço contas complicadas de cabeça, abraço a Vênus de Milo que eu tenho no peito, calculo logaritmos a olho, traduzo algumas frases do latim, reconstruo mentalmente um ranchinho de sapé, imagino cúpulas geodésicas no quintal da minha Mãe, visualizo meus próximos prazeres — tudo sem destino e sem pudor.

Acordo já fazendo ginástica com meu cérebro, pois não quero teias de aranha nos meus neurônios. Quero distância do AD, e desconheço a depressão. Porque sinapses, só as brilhantes me excitam. Então, potencializo-as, a cada instante, com lógica e amor.

Acordo e me levanto, deslumbrado e respirando, já cheio de luz — iluminado, portanto, de novo — e de mim.

Meus dias começam sempre assim..

20.1.17

direito de crescer

O mais fundamental de todos os direitos humanos é o direito de crescer, de desenvolver-se. E para isso é preciso que tenhamos o direito de mudar. Aqui reside a melhor justificativa da existência da Liberdade. Cercear o crescimento, impedir a mudança, sufocar a ousadia — mesmo em nome do amor — é lamentável.

19.1.17

pessoas que dizem amar

Existem pessoas que dizem amar, mas na verdade cometem práticas totalitárias e ditatoriais contra o ser amado. Suprimem a liberdade do ser amado. Querem que o outro preste contas dos seus atos, e que faça um relatório até do que possa estar pensando. Exigem que o outro altere seus planos de vida, isole-se do mundo, renegue suas convicções, abandone os seus desejos, afaste-se dos amigos e destrua a própria personalidade.

Existem pessoas que controlam o ser amado de uma forma irracional. Se pudessem, instalariam câmeras de vídeo no coração do ser "amado". Viram carcereiros. Desrespeitam a privacidade do ser amado. Vigiam, vergonhosamente. Jogam o jogo sujo do poder mesquinho, praticam chantagem emocional, agarram, prendem, oprimem, sufocam.

E chamam isso de amor... Que horror!

17.1.17

meus mamaos


Nenhum dos meus mamãos me compreende. Primogênito, solteiro e sem filhos, amante do vinho, da dança e da música — além de poeta libertário cheio de amores — pareço-lhes um louco. Aliás, a partir do momento em que disserem que me compreendem, estarão eles assumindo, implicitamente, que se foderam. E essa conclusão, sob todos os bons pontos de vista, é-lhes desesperadamente incômoda. Porque nossas razões ainda são mutuamente excludentes. Com a cambaleante e honrosa exceção de um deles (cuja relação até parece razoável, ainda que sem brilho), todos os meus mamãos se deram mal no casamento. Não dá nem pra disfarçar. Logo vemos na cara dos coitados: se foderam todos no grau máximo que a expressão comporta. Eu vivia lhes dizendo, e o demonstrava com minhas atitudes cotidianas: não confundam uma transa eventual com a constituição racional de uma família. Não pensem que todo orgasmo chocho tem necessariamente que gerar uma fruta — ou uma cria. Não se fodam em nome do amor. As relações são passageiras. Tudo se transforma. Não existe amor eterno, etc. etc. etc.

Eu lhes dizia — mas eles fizeram questão de não me ouvir...

16.1.17

solitude

Jamais experimente a Liberdade se você não for capaz de suportar a Solidão.

Eu diferencio claramente solidão de solitude: esta é voluntária e corajosa; aquela nos é imposta pelo Medo. Solidão é carência. Solitude é suficiência. A solitude tem beleza e esplendor: por isso, positiva. A solidão é humilhante, escura e melancólica: portanto, negativa. A primeira é saudável; a outra, uma doença. Solitude é coisa do indivíduo. In-divíduo. Inteiro. Único. Indivisível. Porém, a solidão vive sempre em busca de caras metades. Sempre pede companhia, implora companhia. Mas só companhia não resolve essa questão. Tanto, que existe solidão a dois e solidão a mais. Escrevi até um livro a respeito, com 400 páginas, cujo título é Solidão a mil — com o duplo louco sentido que o termo sugere. Mas o tema é complexo, e eu fico pensando...
O texto continua aqui.

14.1.17

contrabandista de ternuras

CONTRABANDISTA DE TERNURAS

Tenho fogo nas veias e meu espírito é santo. Sou movido a encanto. Mas não se assuste só porque sou livre. Claro que eu mereço tua desconfiança: meu domínio é o Desejo e meu tempo é o Agora. Sou um fornecedor de coragem. Um contrabandista de inocências e ternuras... No mercado poético dos múltiplos amores, vendo flores e estrelas a um preço irrecusável. Dou-me todo e quero luz. Às vezes me reparto, outras me duplico. Entretanto, não me troco, sou inteiro. Às vezes sou pouco, sou tudo, sou nada. Outras vezes, só poesia entusiasmada. Mas sempre no fundo sou Eu. Portanto, feche os olhos e caia em meus braços, que te levarei a um porto inseguro — e delicioso — onde os Deuses te beijarão.

13.1.17

deu certo

Se eu não mudasse, afundaria junto com as circunstâncias. Era preciso, portanto, que eu sumisse dali, que abandonasse tudo o que me envolvia. Tudo: o Pai, a Mãe, os irmãos, a família, os amigos, a escola, o dentista, o professor. O time, o futebol, as duas namoradas, minha vó, meus espetos de picanha e o cheirinho de carvão. Eu tinha que abandonar tudo, inclusive minhas idéias, especialmente as preconcebidas. Os cobertores azuis, a pátria, a religião, e até mesmo o meu querido cavalo Estrela. Eu tinha quinze anos. E tinha que abandonar tudo. Meus lençóis branquinhos de algodão, meu quarto, minha mesa, meus livros, meu baralho, meus recortes de jornal e meu jogo de xadrez. Eu tinha que abandonar TUDO — antes que chegassem a acomodação e a certeza do conforto absoluto. Eu precisava me desligar daquele passado, urgentemente. Eu precisava me salvar. Então, enchi meu peito de futuro e de coragem, de alegria e de relâmpagos — e mergulhei de cabeça na incerta e gloriosa correnteza da vida. Nas águas revoltas do coração do mundo líquido.

Deu certo.

10.1.17

liberdade de exercer a iberdade

Não basta ter liberdade de pensamento. É preciso ter liberdade de exercer o que pensamos.

7.1.17

salvar o corpo

(...) Acontece que não dá para salvar a alma sem antes salvar o corpo. E o que mais excita o ser humano livre é a possibilidade aberta de uma nova vida. Foi por isso que o meu bisavô deixou que a rebeldia lhe subisse à flor da pele. Num certo fim de ano ele tomou aquelas decisões que só os corajosos conseguem tomar: montou o cavalo negro do risco absoluto — e partiu!

Pois ele também já sabia que o único crime que não tem perdão é desperdiçar a vida. Então, abandonou TUDO, para não ter que abandonar a própria existência naqueles caminhos já percorridos. Trocou um milhão de verdades antigas por uma pequena mochila de sonhos. Jogou fora o velho baú de premissas usadas, abraçou algumas dúvidas gostosas, quebrou as algemas — e caiu na Vida.

Não fosse por isso, eu não teria nem nascido — e não estaria aqui, agora, à beira do mar, tomando um belo copo de vinho branco e contando essas coisas pra você. Sou portanto bisneto da rebeldia. Sou bisneto da rebeldia, neto da emoção, filho da loucura, irmão do desejo, primo do prazer, amigo da liberdade, e amante de todos os meus amores. E existo, por incrível que pareça. No céu da minha boca não há fogos de artifício...

Só estrelas!