22.7.18

jo perdeu tudo

havia perdido tudo: a esposa e as amantes, o gado, os filhos, a lavoura e as empresas. Perdeu seus camelos, suas tendas e colares. As carroças conversíveis e os cartões de crédito. Seu mundo começou a ruir. E Deus ainda teve a maldade de cobri-lo com lepra da cabeça aos pés. Jó ficou sem a casa e o jardim, sem o churrasco e a cerveja, sem a música, sem champagne, sem morangos. Na miséria mais absoluta. Sem café e sem Drambuie...
Seus amigos — como sempre acontece! — desapareceram.
Jó perdeu tudo, mas não perdeu a autoconfiança. Não perdeu a Fé, e isto faz toda a diferença. A história, portanto, continua, e pode ser lida na Bíblia, ou no meu livro Solidão a Mil, página 374. Ou, preferencialmente, AQUI.

21.7.18

soul um poeta

Eu não nasci para satisfazer as expectativas de ninguém. Nem mesmo as minhas — que aliás nem tenho. Sou apenas um poeta, meio louco, totalmente livre, amoroso e sensual. Gosto de viver abraçado às coisas alegres dançantes do mundo... Tudo sem pressa e sem pressões. Tomando sol e vinho branco ao lado de dentro dos meus amores. Parece pouco — mas é tudo. Afinal, eu sou assim. E não quero ser mais do que soul...

15.7.18

aleluia mae

Hoje é aniversário da minha Mãe. E agora me lembro das canções de ninar que ela cantava para que eu não dormisse — do Kyrie Eleison ao Noel Rosa. Eu me lembro do conselho que sempre me deu: que eu nunca deixe de ser Eu. E me lembro do dia em que eu nasci: era um dia de duplas esperanças. Era uma noite de luar azul escandaloso. Era um sábado de aleluias e esperas, de poesia e de romance. Era uma casinha de madeira e primaveras, ao lado de uma roseira branca, no finzinho de uma rua principal. Era hora de metáforas, era hora de loucuras. Como toda musa entusiasmada era fora deflorada com amor e alegria por um louco jogador — que se chamava Lúiz. Era outra vez madrugada e ela encantada outra vez. Foi então que essa Mulher sagrada decidiu me dar A Luz. E deu. Era o começo de duas histórias de Amor.


Essa foto foi feita há 13 anos. Logo, ela está hoje cerca de 19,75% mais velha. Mas continua saudável, sorridente, bem-humorada. Aliás, eu nunca a vi triste. Sempre cantando, sempre alegre, agitando as circunstâncias. Nunca brigamos, eu e ela. Nenhum tapinha, nenhum puxão de orelhas, nenhum grito. Nós dois sempre nos compreendemos um ao outro. Como sou-lhe o primogênito e (suponho) ainda o preferido, há toda uma mitologia em torno disso... rs! Acho que até Einstein explicaria melhor do que Freud essa nossa maravilhosa relação de Amor.

11.7.18

meus irmaos

Nenhum dos meus irmãos me compreende. Primogênito, solteiro e sem filhos, amante do vinho, da dança e da música — além de poeta libertário cheio de amores — pareço-lhes um louco.

Aliás, a partir do momento em que disserem que me compreendem, estarão eles assumindo, implicitamente, que se foderam. E essa conclusão, sob todos os bons pontos de vista, é-lhes desesperadamente incômoda. Porque nossas razões ainda são mutuamente excludentes. Com exceção de dois deles (cujas relações parecem até razoáveis, ainda que sem brilho), todos os meus irmãos se deram mal no casamento.

Todos.

Não dá nem pra disfarçar.

Logo vemos na cara dos coitados: se foderam no grau máximo que a expressão comporta.

Eu vivia lhes dizendo, e o demonstrava com minhas atitudes cotidianas:

— Não confundam uma transa eventual com a constituição de uma família. Não pensem que toda relação tem, necessariamente, que gerar uma fruta. Não se fodam em nome de nada, nem mesmo do amor. As relações são passageiras. Tudo se transforma. Não existe amor eterno...

Eu vivia lhes dizendo tudo isso — por anos e anos a fio — mas eles fizeram questão de não me ouvir.

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5.7.18

seja feliz

A COISA MAIS IMPORTANTE DO MUNDO É SER FELIZ.

Por isso eu quero que você tenha a sabedoria de fazer escolhas.
Que você ame a vida sobre todas as coisas.
Que siga sempre o que lhe pede a Natureza, e deixe fluir a gostosura.
Que você tenha a coragem de sonhar — e a ousadia de realizar os sonhos.
Que tenha a compreensão racional por aqueles que hoje você ama,
e um respeito absoluto pela própria liberdade.
Que mantenha o foco só naquilo que realmente vale a pena.
Que sinta arrepios de prazer toda vez que respirar...
Que tenha um perfeito domínio dos teus estados de espírito.
Que trabalhe um pouco menos, que seja sensível e amável,
e que mantenha o entusiasmo em qualquer situação.

E quero que você conviva apenas com pessoas inteligentes,
amorosas, compreensivas, saudáveis, excitantes — e livres.

Eu quero que você seja feliz!

3.7.18

meu ceticismo

Meu ceticismo é um doce milagre: são dançantes as premissas que me encantam e me acendem. Por isso não aprisiono a Razão nos meus sonhos jamais. Quero é sempre sonhar com ela liberta — e depois libertá-la de si mesma também.

Deito-me puro e acordo-me Sócrates no meio da noite, cheio de imagens brilhantes, exatas, porém desiguais. Mas não me basta captar só o foco emocionante da imagem perfeita, eu quero mesmo é capturar a exatidão livre da imagem disforme.

Então destrincho metáforas a golpes de luz, e acendo-me todo, feito um palito de fogo na hora do risco.

2.7.18

joy

Pedi-lhe então que se deitasse no chão da sala onde havíamos dançado, apaguei as luzes, esqueci dos presentes e dos ausentes — e armei-me da inocência mais profunda que fui buscar dentro de mim. Levantei um pouco a blusinha azul que ela vestia, passei creme em sua barriguinha suspirante e mais ainda em minhas mãos. Deslizei meus dedos por toda aquela geografia escandalosa, inundei de branco e de pureza o seu umbigo... Depois, fiz mira no coraçãozinho dela, e atirei poesias a esmo, como se fosse um arqueiro zen enlouquecido de amor.

30.6.18

dia de rotina

Se por acaso e por desastre eu vivo um dia de rotina, espremo à noite o meu coração como quem torce roupa, e não sai nada — nem uma palavra, nem uma gota, nem um pingo, nenhuma emoção. Tudo fica meio cinzento e meu corpo meio cansado só consegue dormir.

Mas quando eu vivo um dia de aventuras, vivo também uma noite de prazer escandaloso. As palavras caem delicadas no meu colo, excitantes, graciosas, uma tempestade de desejos e de mel se forma no meu peito, um livro todo escreveria se quisesse. Deus me abraça com doçura, o vinho branco cai do céu na minha boca, o universo inteiro entra em foco, meus amores se tornam girassóis, e a Vida me convida pra dançar...

E tudo que eu toco vira música.

26.6.18

capela da Mae

Capela de Nossa Senhora de Iracy

Esboço da Capela que vou construir no jardim da minha Mãe. Lembrem-se de Arquimedes, quando disse: "Deem-me uma alavanca e um ponto de apoio e eu levantarei o mundo". Só agora eu vejo que tem relação com isso. Essa obra terá um único ponto de apoio. Eu a tinha feito apenas com dois traços: o V e o círculo. Depois, acrescentei (em traços um pouco mais finos) a "Cruz" estilizada, que em verdade é o ideograma em mandarim 上 (shàng), que significa "pra cima, alto, superior, excelente". E que compõe 上帝 (shàng dì), que significa Deus. O altar ficará no círculo (que na execução será uma esfera). Ainda estou extasiado com a beleza dessa ideia. Ela me surgiu de repente, assim que me acordei, anteontem. Acho que foi o espírito do Niemeyer que SUBIU até Mim. Do Niemeyer e daquele Outro Arquiteto, que, dizem, desenhou este Universo...


24.6.18

perfume no travesseiro

Ontem à noite eu percebi que Joyce Ann, sussurrando como se rezasse, fez uma longa declaração de amor ao meu travesseiro preferido, azul clarinho. Depois de abraçá-lo com ternura e beijá-lo várias vezes, ela derramou duas gotinhas de perfume sobre ele, e foi colocá-lo delicadamente em minha cama. Por isso é que, mais tarde, quando me deitei, sozinho no meu quarto, fui envolvido nas palavras todas que ela deve lhe ter dito, e sonhei antes mesmo de fechar meus olhos...

Se você ainda não viveu um grande amor assim, saia correndo agora mesmo em busca dele.

22.6.18

meia de seda

Quando eu era mais piquinininho, minha Mãe às vezes fazia Meia de Seda, aquela bebida deliciosa, com gostinho de licor de chocolate e amendoim, e que, por ser meio proibida, a gente só podia tomar um copinho. Pois, é: hoje, aqui nesta tarde ensolarada da cidade onde estou, eu fiz Meia de Seda... Com licor de cacau, gin, leite condensado, creme de leite e paçoquinha (não tinha creme de amendoim). Um litro! E agora estou tomando, tudo, deliciosamente, sem pressa, sozinho, de mãos dadas com o Crepúsculo, escrevendo mais um capítulo do meu livro Teoria do Acaso — e me lembrando de minha Mãe...

Não é isto a felicidade?!

20.6.18

garrafinha da joyce

Ela sempre tinha sede à noite. E eu deixava uma garrafinha dágua ao lado da cama, para quando me pedisse. Ela então tomava de olhos fechados, sonolenta e graciosa. Às vezes babava umas gotinhas que brilhavam nos seus lábios fascinantes. Depois, agradecia sonhando e voltava a se deitar, sussurrando alguma coisa como eu te amo meu amor...
Era Joyce Ann — ao meu lado.
De dentro.

19.6.18

barco a deriva

Adoro viajar neste maravilhoso barco à deriva que virou minha vida. Sem bússola e sem mapas. Mas também sem medo e sem pressa — e isso faz toda a diferença. Para escrever meu destino, aprendi a ler os sinais que vêm do céu e os sinais que vêm das ondas. Quase sempre eu me guio pela experiência divina, pela Lógica, pelo vento, e pela Lei das Probabilidades. E se até hoje não me afundei, nunca mais me afundarei.

16.6.18

40

QUARENTA COISAS PRA FAZER AINDA EM 2018:

01. Tome mais água, mais vinho e mais sol.
02. Escolha melhor os teus próximos amores. Prefira os livres.
03. Viva com mais Entusiasmo, com mais Energia, e com mais Coragem.
04. Arranje sempre algum tempinho pra falar com Deus.
05. Faça atividades que estimulem o teu cérebro.
06. Leia mais livros do que leu em 2017.
07. Fique em silêncio alguns minutos todo dia. Pense. Reflita. Medite.
08. Procure dormir tranquilamente, para acordar de bom humor.
09. Faça exercícios físicos. Caminhe pelo menos 30 minutos por dia.
10. Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as.
11. Não compare a tua vida com a de ninguém. Cada um tem sua história.
12. Seja um otimista racional.
13. Mantenha o controle absoluto dos teus estados de espírito.
14. Não se torne sério demais. Só os alegres vão pro Céu.
15. Só gaste tua preciosa energia com coisas gostosas.
16. Sonhe mais. Sem sonho não se cria nada.
17. Saiba que a inveja é um desesperado sinal de fracasso.
18. Jamais conclua apressadamente. Analise antes as premissas.
19. A vida é curta demais para ser tão pouca. Viva mais!
20. Faça as pazes com o teu passado para não estragar o teu presente.
21. Ninguém comanda a tua própria felicidade, a não ser você mesmo.
22. Já que a vida é uma escola — aproveite pra aprender.
23. Sorria mais. Encontre motivos para dar umas boas gargalhadas.
24. Não é preciso vencer todas as discussões. Aceite a discordância.
25. Entre mais em contato com teus amigos e com teus amores.
26. Nunca perca uma oportunidade de ajudar alguém.
27. Se não puder perdoar a todos, ao menos os compreenda.
28. Misture-se aos melhores.
29. Jogue fora tudo que não presta.
30. O que outros dizem a teu respeito nunca vai mudar a tua essência.
31. Não permita que um simples idiota comprometa o teu destino.
32. Faça sempre o que é correto, justo e verdadeiro.
33. Procure não trair jamais a tua própria natureza.
34. Deus cura todas as doenças — exceto o mau humor e a maldade.
35. Valorize a própria liberdade, acima de qualquer outra coisa.
36. Não importa como você esteja se sentindo: pratique uma boa ação.
37. O melhor ainda está por vir — em todos os sentidos.
38. Só o que está morto não muda.
39. Preencha o teu coração com alegria, esperança e gostosura.
40. Mude, mas comece devagar, porque a direção é mais importante que a velocidade.

TransCriação de Edson Marques sobre um texto da internet + partes do poema Mude.

12.6.18

felicidade

Para os filósofos cínicos, a felicidade não é algo passageiro: uma vez alcançada, nunca mais a perdemos. A princípio, parece um absurdo, mas é uma teoria bastante sustentável. Digo isso, e concordo plenamente, porque aconteceu comigo! Sou a prova viva de que isso é possível. Meu conceito de felicidade — já por mim alcançada — é ser bem-aventurado. É ter um corpo saudável, completo domínio dos estados de espírito, e liberdade total. Muita alegria, bom humor inabalável e gostosura transbordante, além de amores infinitos. Ausência de pressa, de ciúmes e de ódio, ausência de medo, inveja e vergonha. E completa ausência de apego. Basicamente isso.

Estou escrevendo algo mais a respeito, que vou publicar no meu livro Sermão da Cordilheira.

7.6.18

casa real virtual

Estou morando numa casa que tem tramela, uma corruíra canta ali na laranjeira e a tampa da chaleira de alumínio começa a tremer lá no fogão de lenha. Nenhum silêncio que não seja o agradável. Um tiziu aveludado toma a decisão de me encantar, saltando vertical no palanque do portão. E eu fico aqui pensando. Se a gente não nasceu num lugar assim, como esse, bucólico, meio oriental, pode ainda ter a sorte grande de renascer num parecido. Sinto-me hoje um louco Hermann Hesse cultivando rosas e alfaces, tocando clavicímbalos ao lado de um pé de lírio, e deitado eternamente no meio de um jardim, no quintal da minha Mãe.

A bem da verdade, minha casa não tem tramela nem palanque no portão. Aliás, minha casa nem é minha. E fogão de lenha já não vejo há muito tempo. Mas eu toco clavicímbalos até que bem, cultivo rosas e alfaces num canteiro de estrelas, e vivo mesmo num jardim... E o tiziu aveludado imaginário é quem conta essas coisas todas tão malucas e amarelas para mim. Acordei hoje cedo num hotel brilhante no meio do Rio (*), sem saber de onde vim, nem pra onde vou. Talvez foi isso que me fez lembrar do fogão de lenha da Vó Vitalina e do quintal da minha Mãe.

(*) Rio que corre por dentro da Pedra.

5.6.18

espirito amoroso

O espírito amoroso e excitado da consciência abraça sempre a minha alma e dançam juntos no meu próprio coração. Para que não se possa mais deter minha loucura, nem frente ao juízo em contrário que as paixões sinceras acabam provocando.

Minha alegria não precisa nunca mais de recompensa: ela mesma já se paga e me abençoa, porque existe simplesmente. Afinal, ninguém consegue desfazer o que foi feito — se foi feito com razão e gostosura, com amor e liberdade.

1.6.18

jesus mestre zen

Quando uma pessoa normal fala em morte, ela está se referindo à morte biológica. Quando um mestre zen fala em morte, ele está se referindo à morte metafórica. Jesus não era uma pessoa normal. Jesus pregava a morte metafórica. Quando ele dizia que a felicidade só existe depois da morte, ele propunha que abandonássemos esta vida. Que a trocássemos por outra, melhor. Mas os idiotas pensam que Jesus era um imbecil, e que estava pregando que a felicidade só virá depois da morte biológica. Nada disso! O que Jesus pregava — em verdade, em verdade — era a morte do apego, da inveja, do ciúme, do ódio e da cobiça. Olhai os lírios do campo e os pássaros do céu — dizia Ele. Mas os idiotas jamais olham para o céu. E acham que as asas foram feitas para guardar dinheiro e proteger as posses... Os idiotas jamais entrarão no Reino de Deus.

31.5.18

sonia maria santissima

Sônia tem treze anos, e é linda. Sensualíssima. Convidado por ela, vamos ao cinema. Sentamos lá na última fila. Quando as luzes se apagam, ela desliza suavemente sua mão esquerda por minha perna, e ficamos de mãos dadas, enternecidos. Meu coração dispara de alegria. Nem me lembro do filme, mas sei que tinha John Wayne. Quando a sala se ilumina em certas cenas, eu vejo que a outra mão dela está entre as duas do Júnior, um amigo meu. A princípio, estranhei um pouco, mas a parte de Sônia que me tocava continuava comigo... E assim, por muitos filmes e muitas e muitas noites de claro amor inocente, eu aprendi a compartilhar a musa até hoje inesquecível. Eu tinha então doze anos — e isso mudou minha vida para sempre. Aprendi que ninguém é dono de ninguém. E o que é mais importante: ninguém é propriedade de ninguém.

30.5.18

auditor jesus

Se eu não devo me esquecer jamais do bem que alguns me fazem, por que deveria eu esquecer do mal que outros já me fizeram? Seria injusto. Se for desse modo, a contabilidade não fecha. E Deus, implacável auditor, não gostará de ver um erro assim tão grave no meu balancete.

Eu às vezes contrario o Auditor e até me esqueço de certas maldades que alguns já me fizeram. Mas em seguida me lembro da Bíblia, Lucas 17-3, onde se pode ler que: Se teus irmãos fizerem uma maldade contra você, mas se arrependerem sinceramente, conceda-lhes o perdão. Antes, porém, dê-lhes uma porrada inesquecível. Entretanto, como o assunto é complexo, vou pensar mais um pouco a respeito. Afinal, tem coisas que nem sabemos se são um mal ou são um bem...

25.5.18

20.5.18

tudo por um fio

Minha grande inspiração é Henry Miller. E foi Rimbaud quem mudou a visão de mundo de Henry Miller. E eu, influenciado por Henry, vou em busca de Rimbaud e encontro Baudelaire mudando a cabeça de Rimbaud — e este virando a cabeça de Verlaine para todos os lados. É um círculo maravilhoso... Depois ainda chegam Lorca, Neruda e Vitalina; Sartre, Osho e Cioran; Paritosh e minha Mãe — todos pairando sobre mim como doce ameaça de vida. E todos me fazem virar a cabeça, deliciosamente. Até mesmo essa menina de azul me faz virar a cabeça. Aqui na praia, quase sempre sinto-me Dâmocles, e a espada — suspensa sobre a minha cabeça por um fio de seda — brilha seu fio nesta tarde de sol infinito. O vento a balança, eu olho para os lados, encaro o desafio e começo a sorrir.

Tudo por um fio... É neste momento — quando confio no risco — é neste exato instante-agora que a Vida chega. Porque, você sabe, a vida só chega no justo momento em que temos consciência de que ela está por um fio... Ou dois!

17.5.18

ninguem mais

Houve épocas,
quando eu era menor,
quando eu era pequeno,
em que algumas pessoas, muitas pessoas,
diziam me amar,
mas na verdade elas me tosquiavam,
atavam minhas mãos, tutelavam meus desejos,
me sufocavam...

Só aplaudiam meu bom comportamento
e minha submissão.

Diziam me amar,
mas contraditoriamente me impediam de ser livre.

Cerceavam minha naturalidade,
matavam minha ousadia,
e amputavam minha glória.

Exigiam que eu só obedecesse,
como se Deus jamais morasse em Mim.

Mas agora,
agora ninguém mais consegue
sufocar o meu grito de liberdade;
ninguém mais quebra
minhas asas de pássaro livre.

Ninguém mais.


Ou me amam de verdade
e voam comigo,
cada vez mais alto e mais fundo
— ou ficam no chão,
simplesmente.

15.5.18

tia ana

Tia Ana. Certa vez, por quase dois meses, ela repartiu comigo seu próprio quarto, para me ajudar a estudar quando meu pai quase me tirou da escola a fim de transformar-me em dono de restaurante. Eu tinha dez anos. Jamais me esquecerei. Ela, não só por isso, foi muito boa para mim. Ela dizia que, para uma boa convivência, a gente deve sempre compreender e perdoar os três maiores defeitos de cada pessoa. Por isso, eu agora vou perdoar os três maiores... dela!

Mas, antes, tenho que pensar um pouco, pois só me lembrei de um. Será que ela tinha três? Entretanto, aproveito para te perguntar: no caso dos teus amigos, parentes e amores — você consegue compreender e perdoar os três maiores defeitos de cada um deles?

13.5.18

Dia das Mães

Era um dia de duplas esperanças. Era uma noite de luar azul escandaloso. Era um sábado de alelúias, era hora de metáforas e loucuras. Era uma casinha de madeira e primavera ao lado de uma roseira branca no finzinho de uma rua principal. Como toda mulher inocente, minha Mãe havia sido deflorada por um delicado Inspírito Santo. Era madrugada e ela estava sozinha outra vez. Foi então que essa Mulher me deu a Luz. Era o começo de uma história de Amor.

Antes do leite, antes do açúcar, antes do arroz com feijão — eu queria mesmo era o amor que ela me dava. Este foi meu primeiro e mais querido alimento: o Amor. Como se pode notar, eu sempre me alimento de Amor e de Mãe, de risco e paixão, de glória e loucura, flores, estrelas, matemática, poesia, lógica e mulher. E liberdade — é claro.

Ela jamais quebrou as lanças da minha ousadia, e nunca pensou em cortar-me as asas de pássaro livre. Ela me apoia com entusiasmo, incentiva os meus saltos profundos e me aplaude todas as conquistas. Compreende os meus gestos, mesmo quando parados no ar. Ela me aceita como sou, inteiramente. E me faz acreditar, cada vez mais, que o verdadeiro amor é a união delicada de duas espontaneidades, a fusão poética de dois devaneios. Ou mais.


Até hoje é assim a minha Mãe. Simpática, amorosa e cheia de alegria...

11.5.18

passaro surpreso

Há dias em que é preciso que eu te perca inteiramente. É preciso que eu siga o que me pede o coração apaixonado — e o que suplica um novo grande amor aos pés da nova cama. Tua imagem, minha flor, fumaça escandalosa desprendida de si mesma, some em meio à volúpia da minha próxima lembrança. Então, te esqueço — carinhosamente. Mas, de repente, num voo alado de pássaro surpreso, entro em mim pra te buscar. Se te encontro, a busca me alucina intensamente, e se me encanto, ao contrário, é meu verbo que engravida o teu espanto.

7.5.18

previsoes de 1995

Texto que está na primeira edição do meu livro Solidão a Mil, 1998, página 352.

Em 1995, como analista de sistemas do Grupo Itel, fiz uma palestra sobre a viabilidade de se utilizar o mesmo atual cartão eletrônico bancário como cartão único, universal, conectado à rede que eu chamo de U-Net (sucessora da internet). Desde que melhorado e com um chip controlador poderoso, nele estariam todos os nossos dados básicos: Identidade, cadastro médico, CPFG, carteira de habilitação, registros profissionais, currículo escolar, efetivos controles de aposentadoria, histórico amoroso, saldos bancários, preferências, livros lidos, contas pagas e a pagar, pendências judiciais, viagens, agendas, senhas de acesso. Aproveitaremos a atual estrutura de informática dos três grandes bancos que restaram. Uma Digital Station (os antigos PC, MC, Notebooks) poderá ler esse cartão via rádio (e mais tarde raios gama) à distância.

Servirá também como cartão telefônico, substituindo o antigo celular. Suas coisas pessoais, sua casa e seu carro, não poderão ser acessados sem a inserção autorizada do respectivo cartão, mediante impressão digital. Por exemplo, será abolido, por desnecessário, esse costume medieval de um guarda rodoviário interromper nossa viagem para pedir documentos. Até o excesso de velocidade ficará nele registrado, sendo a respectiva multa debitada imediatamente da sua conta bancária. Tudo será online.


Isto foi em fevereiro de 1995. Um dia chegaremos onde eu então previa. Liberdata Biopersona era o nome do Projeto.

4.5.18

natureza da paixao

Paixões que se dizem eternas são mentirosas. Enganam a vítima. São apenas pedras frias que trazem frustração e tristeza, e nas quais tropeçamos. Acabam se tornando insuportáveis. Ao contrário, as paixões verdadeiras, as deliciosas — as passageiras! — só nos dão prazer e alegria. Mas tem gente que pretende transformar as passageiras em duradouras. Apaixona-se em novembro, e já quer fazer planos para o Natal... É a consagração da insegurança. O abandono do Princípio da Incerteza. O medo do risco e da perda. Ora, se nossa primeira paixão já fosse eterna, teríamos uma só — pelo resto da vida... Já imaginou a chatice?

A natureza da Paixão é ser fugaz. Esticá-la no tempo é torná-la insossa e rarefeita.

Eu gosto de dizer que as paixões devem ter o brilho de um relâmpago — e a mesma duração. Relâmpagos não ficam acesos para sempre. Você vive um, e em seguida risca outro! Mas, não se preocupe: ninguém é obrigado a amar o risco e ser brilhante todo dia.

3.5.18

salmo 77

Hoje minha Mãe ligou-me de manhã só pra me dizer: "Pegue a Bíblia e leia o Salmo 77. Lá diz que às vezes temos que ralhar com Deus..." Fazê-lo encostar seus ouvidos em nossa boca para que ouça bem o que temos a lhe dizer. Quando o Velho se faz de surdo, temos que levantar a Voz. Quando Deus dorme, temos que sacudi-lo e acordá-lo, respeitosamente.

Mas — eu pergunto — e se Ele estiver sonhando?

1.5.18

eu

Na Filosofia-USP eu sempre me defini como indefinível. Porém, depois, ao estudar computação e me tornar um analista de sistemas, senti que essa expressão também me era imprópria, pois meu universo se expandiu, e comecei a supor que eu era um "analista de circunstâncias". Com o tempo, virei um Vendedor de ideias — e era exatamente isso que dizia o meu cartão de visitas. Acontece que eu sempre mudo. Aliás, como diz o meu poema: Só o que está morto não muda. Então, e por isso mesmo, eu hoje passo a definir-me como um Descobridor de Competências.

Mais tarde eu volto aqui para explicar esse conceito.

29.4.18

dia da mae

Era um dia de duplas esperanças. Era uma noite de luar azul escandaloso. Era um sábado de alelúias, era hora de metáforas e loucuras. Era uma casinha de madeira e primavera ao lado de uma roseira branca no finzinho de uma rua principal. Como toda mulher inocente, minha Mãe havia sido deflorada por um delicado Inspírito Santo. Era madrugada e ela estava sozinha outra vez. Foi então que essa Mulher me deu a Luz. Era o começo de uma história de Amor.

Antes do leite, antes do açúcar, antes do arroz com feijão — eu queria mesmo era o amor que ela me dava. Este foi meu primeiro e mais querido alimento: o Amor. Como se pode notar, eu sempre me alimento de Amor e de Mãe, de risco e paixão, de glória e loucura, flores, estrelas, matemática, poesia, lógica e mulher. E liberdade — é claro.

Ela jamais quebrou as lanças da minha ousadia, e nunca pensou em cortar-me as asas de pássaro livre. Ela me apoia com entusiasmo, incentiva os meus saltos profundos e me aplaude todas as conquistas. Compreende os meus gestos, mesmo quando parados no ar. Ela me aceita como sou, inteiramente. E me faz acreditar, cada vez mais, que o verdadeiro amor é a união delicada de duas espontaneidades, a fusão poética de dois devaneios. Ou mais.


Até hoje é assim a minha Mãe. Daqui a pouco vou ligar pra ela.

26.4.18

reparto tudo

Reparto tudo: reparto o beijo, o abraço, a lua, o chocolate, o pão e o queijo; reparto o amor e o vinho, as flores e as estrelas. Reparto e compartilho. Tudo. Às vezes, simultaneamente... Reparto, com muito mais ênfase ainda, a felicidade, a alegria e o prazer. Porque essa coisa de relação fechada possessiva é lamentável. É uma coisa que eu suponho ultrapassada — pelo menos nas sociedades mais desenvolvidas. Ou, melhor, naquela parte culturalmente mais desenvolvida das sociedades. Essa coisa (ciúme, posse, etc.) na verdade é um horroroso "negócio": Aquilo que nega o ócio. Nega o prazer, e nega o amor. Nega a liberdade.
Portanto, se você não encontrar razões para ser livre, invente-as.
E viva a Vida.
Ou não.

21.4.18

general poeta

Quando eu tinha seis ou sete anos, minha Mãe comentou comigo as palavras da mãe de Picasso, sobre o filho ser padre ou ser soldado. Entretanto, disse-me que não gostaria que eu fosse nem padre nem soldado. E se, por acaso ou por destino, eu seguisse uma dessas carreiras, teria que ser, no mínimo, papa ou general. Mas ela queria mesmo é que eu fosse um poeta. Um artista das palavras doces. Só isso.

20.4.18

jardim que falo

Eu modifico perfumes e delícias em palavras e velas — e planto meu verbo num jardim que fala. Há um canteiro de ternuras e de flores no meu corpo ensolarado. Por isso é que transformo em arrepios o que me pede a Natureza a todo instante.

16.4.18

se faz sol

Se a palavra me fere, não sou eu que desmaio — ela que perde o sentido.
Se um verbo me agride, não revido: me esquivo.
Se quebram meu brinquedo, eu conserto.
Se me roubam o carro, compro outro.
Se furam minha bola, tenho mais.
Se acaba o vinho, tomo leite.
Se chove, danço na chuva.
Se faz sol, me bronzeio.


Para mim, tudo é motivo pra viver.
Só se um dia me faltar a Liberdade é que me sentirei morto!

15.4.18

o coracao do teu amor

O coração do teu amor tem que ser livre, para que nele pulse o sangue do imaginário e da fantasia. O coração do teu amor em que ser livre, para que nele difundam-se as cores e as delícias da paixão descontrolada. O coração do teu amor tem que ser livre, porque, senão, estrangula-se o Amor, estraçalha-se a Beleza, e morre o Espontâneo. E desaparece então qualquer possibilidade de Prazer. O coração do teu Amor tem que ser livre — simplesmente.