1.5.13

enquanto trabalho

Se enquanto trabalho não faço amor,
não escrevo poesias, não tomo sol nem vejo a lua;
Se enquanto trabalho não sorrio nem gargalho,
nem vejo os olhos amantes da minha mãe;

Se enquanto trabalho não ando descalço
em areias brancas, nem ouço o barulho do mar;
Se enquanto trabalho não abraço a Vida com tesão e alegria,
nem leio Henry Miller nem Neruda nem Jesus;
Se enquanto trabalho não mergulho fundo em minha alma;
Se enquanto trabalho não vejo filmes, não sinto perfume de lírios,
nem admiro alguma coisa genial de Michelangelo;

Se enquanto trabalho não escalo essas montanhas,
nem salto profundo, nem tomo vinho branco;
Se enquanto trabalho não medito, nem canto, nem ouço música,
nem como doce de abóbora com coco ralado,
nem respiro o sagrado ar da liberdade...

Se enquanto trabalho não sonho, não pinto, nem componho,
não desenho, nem danço, nem esculpo;
Se enquanto trabalho nem sequer me lembro
dos vinte poemas de amor e das canções desesperadas;
Se enquanto trabalho não parto melancias,
nem crio conceitos,
nem beijo mamilos de um grande amor...

Se enquanto trabalho não faço nada disso,
então só me resta perguntar:

O que é que estou fazendo aqui?

3 comentários:

Edson Marques disse...

Minha homenagem ao Dia do Trabalho.

Mas espero, sinceramente, que não seja o teu caso... rs!

http://mude.blogspot.com.br/2013/05/enquanto-trabalho.html

Edson Marques disse...

Esse poema foi escrito há muito tempo, no começo da década de 1990, quando eu era Diretor de uma grande empresa e já dono de mais duas. Tinha as minhas noites livres, mas trabalhava todos os dias. Exceto aos domingos, quando corria no Pico do Jaraguá, ou nos Parques do Ibirapuera e da Aclimação. Embora eu fosse dono do meu tempo (podia, por exemplo, demorar quatro ou cinco horas no almoço), eu trabalhava demais. Ganhava muito, mas trabalhava demais... rs!

E então foi Nietzsche quem me abriu os olhos sobre o horror desse excesso de trabalho. Que, no meu caso, nem era tão excessivo assim, mas...

Conto essas coisas todas no segundo volume do meu livro Solidão a Mil.

É a vida. Porque agora estou tomando meu terceiro copo de café, e os sanhaços estão sem banana. Mas já aguei os pezinhos de lírio!

Anônimo disse...

Belo texto! Parabéns!