4.11.12

artista ou marinheiro

Quando eu era mais pequeno, queria muito ser artista ou marinheiro. Entretanto, minha Vó me cutucava, sorria escancarando amor e gentileza, me dava um pedacinho de bolo, limpava suas mãos no avental azul enfeitado de remendos coloridos, e me dizia:
— É muito cedo ainda, meu filho: deixe pra escolher depois.
Eu arqueava a minha boca interrogante, sem saber bem o que dizer. Ela então arrastava seus chinelos cansados até o fogão, e gritava lá do fundo da cozinha, insuperável:
— Hoje vou te dar dois pedaços...
Era minha maior alegria!
O copo de café com leite, transbordando à minha frente, parecia uma escultura. Eu tamborilava meus dedinhos impacientes na toalha de linho branca bordada por Tia Yole. Sinto ainda hoje o gosto do fubá na minha boca, esfarelando, o cheirinho do queijo derretido em palha de milho na alvíssima chapa negra do fogão de lenha. Olho para trás e vejo claramente minha Vó Vitalina, com a boca no bico do bule, tomando café e sorrindo pra mim...
Marinheiro não fui: muito longe era o mar. Hemingway bem que tentou me seduzir...
E agora, quando armo a lona azul celeste do meu circo, subo no trapézio, passo talco e risco em minhas mãos, seguro firme nas cordas, tomo impulso para o salto profundo, olho meus amores todos na plateia — e fico pensando nas escolhas vitais que hoje posso fazer.
Mas me lembro de novo do velho conselho da Vó Vitalina:
— É muito cedo ainda, meu filho...
Tudo tem seu tempo.

7 comentários:

Edson Marques disse...

Ouvindo o barulho das ondas e a vozinha amorosa da Vó Vitalina. São 06h47, e eu vejo que é muito cedo ainda...
É a vida!

http://mude.blogspot.com.br/2012/11/artista-ou-marinheiro.html

Dulce Morais disse...

Muito terno!
Gostei imenso da alma de menino que transparece das palavras.

sonia kahawach disse...

Renovo o conselho: é muito cedo ainda, menino. Terá tempo pra escolher mais tarde. Por enquanto encante-se com a lona azul de seu palco e voe alto mesmo sem rede. Tenha um ótimo dia!

Edson Marques disse...

São 09h52 e ainda estou na cama. Ou melhor, no meu berço. Que nem meu é, pois é das minhas lembranças. Dos meus sonhos. Daqueles sonhos que sonho acordado e daqueles que tenho dormindo. Aliás, estes podem ser algumas das várias dimensões que os físicos dizem ter o Universo. Os físicos e os deuses.

O contador de acessos me diz que 27 pessoas diferentes já lerem este meu texto de hoje. Respondo a todas elas, e especialmente a Dulce Morais e Sonia Kahawach, que deixaram comentários acima.

Vocês talvez nem imaginem o quanto demorou para que a palavra "vitais' ficasse bem em cima da Vitalina. Tive que escolher várias palavras para compor a frase. Assim como terei hoje que fazer várias escolhas nos caminhos que eu percorro. Minha vida é múltipla. Tenho muitas dimensões, mais ainda do que diz a Teoria das Cordas (essas mesmas que seguro no trapézio do meu circo). A vida é uma aventura extraordinária. Não a desperdicem jamais!

Vou agora tomar um café, e ficar ali, ouvindo bem-te-vis e tomando decisões. Escrevendo e desenhando. Inventando coisas. Fazendo escolhas. E exercendo meu papel de criador...

É a vida.
E agora já são 10h13.
E o 13 do minuto me traz Joyce Ann à lembrança, no mesmo instante. Que se eterniza, é claro.

Os passarinhos me chamam. Deus, também.

sonia kahawach disse...

Já estou na vida desde muito cedo. Hoje não deu pra curtir o berço. Joyce Ann estava no pico? Perdoe se estou sendo indiscreta. Precisei voltar no texto pra entender sua preocupação com o "vitais". Realmente é um construtor, não? Carinhos pelo dia.

Patrycia Andrade disse...

Sonho acordada neste instante e é tão libertador! Mais uma vez obrigada por me lembrar de sonhar sempre!

Penelope Wells disse...

Joyce Ann de novo. O amor é lindo! O nome dela é lindo! E o seu fazer poético é lindo!
Pulchra somnia!Delirium!