17.10.12

divina mentira

Ontem eu menti para um morador de rua. Dito desta forma, sem explicação, parece algo negativo. Acontece que foi assim: eu vi que um morador de rua precisava de uma coisa que eu tinha no exato momento em que o encontrei. Disse-lhe, então, que tinha duas delas, e que, por tê-las sobrando, lhe daria uma. Ele, um pouco relutante, mas com visível alegria, aceitou a minha oferta. Porém, o fato de eu lhe ter dito que tinha duas delas era "mentira": eu só tinha uma — exatamente aquela única que lhe dei... Ele estava sentado na soleira de uma porta fechada, no centro da cidade, com sua velha mala azul ao lado esquerdo. Tinha uma postura respeitável, um olhar seguro, a fala mansa, a barba longa, cabelos penteados. E sorriu quando nos despedimos. Jamais me esquecerei daquele olhar agradecido. Será que era Jesus travestido de andante? Talvez não. Mas depois eu vou contar algo mais a respeito. Principalmente, sobre o sentimento de plenitude em que mergulhei ao ficar livre de uma coisa que me era extremamente útil e valiosa, mas de que um outro ser humano — talvez divino — precisava muito mais do que eu...

5 comentários:

Edson Marques disse...

Tudo acontece, necessariamente, por acaso. Esta é a linha do meu livro Teoria do Acaso.

http://mude.blogspot.com.br/2012/10/divina-mentira.html

Estou tomando café, ouvindo pássaros e vendo a chuvinha...
PNJNMMNPEEM

sonia kahawach disse...

Bonita sua atitude com o morador de rua. Faço sempre dessas coisas não só com morador de rua, mas com pessoas que convivem comigo e gostam de alguma coisa que tenho. Espero que em muitas das vezes tenha sido mesmo Jesus travestido que passou por mim. Quem sabe assim, quando chegar no outro plano, já tenha algumas falhas cobertas.
Sempre digo que nada é por acaso e que tudo acontece por algum motivo nem sempre explicável de imediato, mas sempre esclarecido em algum tempo. Até gostaria de saber de suas conclusões sobre acasos.
Aqui foi uma noite de muitos raios, trovões e água. Agora o sol já sorri no azul.
Carinhos pra esta tarde gostosa.

Bandys disse...

É poeta,

o desapego é para poucos.

Beijos

Euwaldo disse...

Para poucos o desapego...

Seus textos me parecem tão familiar, tão perto daquilo que penso e que tenho vontade de ser sempre. Existem alguns fatores que nos limitam na prática do desapego, como pressão familiar, muitas vezes vergonha por fazer algo diferente e sempre quisemos fazer e outros mais.

Edson, em 2002 fui apresentado ao seu poema "Mude" e desde lá passo adiante. Tento um pouco mais, iluminar as pessoas com a sua sensibilidade. De vez em quando adquiro uns 5 exemplares deste inspirador poema-livro-cheio-de-figurinhas (rs) e distribuo. Isso vai contagiando e quando vemos já se formaram outros contagiadores para a mudança.

Abraço de urso,

Euwaldo Novaes Jr
Nanuque-MG

Sonia Breder disse...

Muito bom , me faz lembrar uma cena de Alto da Compadecida , adorei o desenvolver dessa historia e instigantes.