5.7.12

um ano depois

No primeiro dia, beijo-lhe os pés delicadinhos, chupo-lhe os dedinhos, um por um, sinto todos os perfumes, percorro-lhe os vãozinhos, os meandros, as curvas, minha língua vai coleando seus caminhos de amor. Êxtase total. Porém, depois de uma semana, ou duas, antes de fazer isso já lhe passo um pano quente para retirar areias finas. Passo cremes, faço massagens, repito operações. Ainda existe amor e entusiasmo nos caminhos que percorro — e muito! Mas, depois de um mês, ou dois, já me esforço para lembrar que ela tem pés. E se tento beijá-los, às vezes me distraio um pouco. Pois há pedregulhos nos vãos dos seus dedos, aquele perfume parece que se foi. Minha língua se transforma então em cascavel inexplicável que foge apavorada de um deserto já sem fim. E um ano depois, ou dois, tudo tem gosto de areia...
Acho que é o tempo.
E o vento.

Os pés de um grande amor mudam muito mais rapidamente do que o próprio grande amor, em si. /// Eu gosto de republicar alguns dos meus textos — como esse acima, que é do livro Solidão a Mil, e foi escrito a propósito de um grande amor. Eliana. Eu a conheci num crepúsculo da Enseada, Guarujá, 2004. Morena linda com maiô amarelo e olhar de fogo. No primeiro dia, eu nem vi as areias nos pezinhos dela. Verdade!

2 comentários:

Edson Marques disse...

O tempo é fatal.

http://mude.blogspot.com.br/2012/07/um-ano-depois.html

Edson Marques disse...

O pé de um grande amor muda muito mais rápido do que o próprio grande amor, em si.