8.7.12

pico de mim mesmo

Sou livre. Por isso, nada mais é necessário porque nada é tão preciso. Não existe mais busca, não há posse no território que habito a partir de mim mesmo. Nada tenho que eu possa perder, nada existe que eu queira ganhar. Produto do meu próprio trigo, gume da minha própria faca, sou o verso da minha poesia, e a fantasia de um espírito em repouso. Meu movimento, meu ócio, meu verbo, meu Deus. Minha pátria, minha religião, meu partido, meu clã. Sou a saudade e a ausência de suspiros, a sorte que sustenta-me o corpo, sonho enlouquecido da minha alma, porta que se abre sobre si, a paisagem, a luz — e o olho. Sou a morte do ontem, e a Vida que chega. E que basta, naturalmente. Como nada existe além do que eu perceba, nada mais preciso que a incerteza que se torna necessária. Nada me interessa além do que me toca o coração. Nada mais profundo do que ser só o máximo do mínimo. Nada mais gostoso do que a própria gostosura, nada mais humano que a divina alma desejante, saciada por ter sido, e estar sendo, ela mesma — e nada mais. Então, nada me falta e nada me sobra: sou a exata medida de todas as coisas, um conjunto pleno de vazio e de amor, mestre discípulo de Mim, um barco sem destino navegando numa breve eternidade — um verdadeiro Himalaia de razões.
Sou portanto o Pico de mim mesmo.
Nada mais.

3 comentários:

Edson Marques disse...

Sou.

http://mude.blogspot.com.br/2012/07/pico-de-mim-mesmo.html

Edson Marques disse...

Esse texto se completa (?) com este outro, escrito na mesma época (Guarujá, 2001/2002):


Sou o autor da minha peça e o próprio personagem. A dança e o bailarino, a música, o maestro, compositor. A ternura mais vermelha e delicada, o lóbulo da orelha e o copo de vinho do meu amor. O beijo e o abraço, a delícia e o licor. O êxtase, e todas as auroras que ainda vão chegar. Sou o céu do precipício, a língua do horizonte — e mais além. Sou o sagrado e o profano, o profundo e o supérfluo, a origem da tragédia, e o brilho da cor. Sou mínimo e tanto, pouco e princípio, paixão, excesso e glória. Sou relâmpago, transitório, passageiro, imprevisível, pétala de estrela solitária, um pingo de ocidente no teu mel. Sou todo infinito no entusiasmo, e a última labareda amorosa de uma espécie de fogo em extinção...


Talvez eu junte os dois algum dia.

É a vida!

Joel Munhoz disse...

Olá, amigo, uma bela forma de dizer que a única coisa que podemos ser é nós mesmos, e isso já é mais do que o suficiente. Parabéns!