Quando você entrou em meu coração, e conviveu com todas as flores que lá existiam — aquilo foi um belíssimo gesto de amor. Mas, agora, agora que você penetra o meu peito apaixonado, e exige que eu arranque todas as flores que lá existem — isto é violência. Não importa o nome que você lhe dê: isto é violência.
Esse texto foi originalmente escrito para Dora, a linda e delicada morena por quem me apaixonei no estúdio, enquanto ainda fazia suas trezentas fotos. Tivesse durado só três ou quatro meses, a nossa teria sido uma belíssima história de amor. Mas, eu e Dora, inexperientes e afoitos, cometemos o erro primário de ficar além do Pico... Para Dora, depois de um certo tempo, já não lhe bastavam mais os meus olhares: ela queria ser a dona exclusiva dos meus olhos. Mas os olhos de um poeta, você sabe, não podem ser alienados. E a coisa então resultou numa tragédia... Eu realmente demorei muito para reagir. Dora, no começo, era de uma leveza insuperável, mas depois se tornou uma âncora amarrada ao barco da minha vida. Só depois que eu reagi, só depois que saltei inteiro nos braços abertos da liberdade absoluta, só depois que passei a me amar de verdade, é que vi que a minha reação poderia ter se dado antes. Muito antes. E essa é a única dor que ainda carrego no peito. Perdi muito tempo: foram dois anos de relação despedaçada. Dois anos de tempo perdido. Para mim, que sofri demais em defesa da liberdade, e para ela, que não conseguiu seu intento de amarrar-me para sempre.
E eu fico pensando.