8.10.11

o pequeno principe

TU TE TORNAS ETERNAMENTE RESPONSÁVEL POR AQUILO QUE CATIVAS

Essa frase é de
Saint-Exupéry — e pode ser lida no capítulo 21 do livro O Pequeno Príncipe. É uma frase com belíssima sonoridade em português, e impressiona talvez por isso. Mas seu sentido é questionável. A palavra-chave para seu entendimento é "cativas", que vem do verbo "apprivoiser". Se tomarmos o verbo "cativar" significando "conquistar a simpatia", seduzir, a frase se torna ridícula: claro que não devemos nos responsabilizar, eternamente, pelo julgamento que um outro faz de nós. Menos ainda se esse eventual julgamento positivo for apressado e meramente estético.

Contudo, se tomarmos o verbo cativar pelo sentido de "prender" (e daí cativeiro, prisão, gaiola, canil, etc.), a frase começa a se sustentar: se prendermos um animal, devemos cuidar dele e garantir-lhe o sustento. Da mesma forma, se prendermos uma pessoa, também devemos cuidar dela, e garantir-lhe os direitos básicos. Acontece que, ao prendê-la, contraditoriamente, já lhe retiramos o mais básico dos seus direitos, que é o direito de ser livre. Logo, essa frase é apenas um impressionante amontoado de absurdos. Uma insensatez — que é repetida como se tivesse algum valor.

E ainda chama o outro de "aquilo". Como se vê, embora bonita, é uma frase extremamente bobinha. O verbo francês "apprivoiser" significa domar, domesticar. Mas suponho que tenha sido um exagero de tradução, e que Antoine de Saint-Exupéry, no contexto, quis dar-lhe um terceiro sentido. Ele mesmo chega a dizer que "apprivoiser" significa "criar laços". Temos que pensar um pouco mais a respeito.



"O Pequeno Príncipe" parece uma obra simples, mas não é. Aliás, é profunda e contém a filosofia de Saint-Exupéry. Seus personagens são parabólicos: o rei, o geômetra, o contador, a raposa, a rosa, o adulto solitário e a serpente, entre outros. O pequeno príncipe era sozinho num planeta pequenino que tinha três vulcões: dois ativos e um extinto. Tinha também uma flor, belíssima e orgulhosíssima. E foi o orgulho exagerado da rosa que desestabilizou aquele mundo do pequeno príncipe e o fez empreender a viagem que o trouxe à Terra, onde encontrou personagens fantásticos, a partir dos quais descobriu o segredo do que é realmente importante na vida. É uma obra que nos mostra uma radical mudança de valores, que ensina como às vezes erramos na avaliação das coisas e das pessoas que nos cercam — e no quanto esses julgamentos são questionáveis. Nós nos preocupamos quase sempre com banalidades, nos tornamos adultos muito cedo — e rapidamente nos esquecemos da criança que ainda somos.

Leia aqui o capítulo 21.

6 comentários:

Eidy disse...

Maravilhosa sua mirada microscópica, sobre este clássico de Saint-Exupéry, nunca fez tanto sentido pra mim , olhando agora pelo seu ponto de vista, me fica a pergunta? Porque nunca pensei nisso?

Beijos meu querido.

Dinara Lima disse...

Li aos 13 anos este livro. Confesso que sempre fiquei angustiada com o capítulo 21 pois a raposa ficou numa sinuca de bico, como se devesse algo. Hoje vejo que este capítulo nada mais trata da seguinte questão: inúmeras pessoas vão passar por nós, nossas experiências amorosas, seja de amor ou amizade, porém vamos gostar mais de alguém e esse alguém pode gostar de nós em um determinado momento e depois não mais acontecer isto. Eis que então nasce a mágoa. Mas nós fazemos o mesmo também com outras pessoas e isto não quer dizer que temos que nos sentir responsáveis. Faz parte do amadurecimento em como lidar com romances e emoções. Uns conseguem amadurecer bem... já outros não e ficam iguais ao pequeno príncipe cobrando e outros se sentindo culpados feito a raposa. Bom dia.

sonia kahawach disse...

Lendo você me aguçou a curiosidade de ler novamente O Pequeno Príncipe, até pra sentir como o interpretarei agora, pois li tem muitos e muitos anos e há pouco tempo emprestei pra minha neta que tem 9 anos. E como sou curiosa, além de me rever vou questionar como a jovenzinha pensa com relação aos sentimentos. Depois comento com v. Beijos

nanda disse...

O seu comentário sobre o Pequeno Príncipe é desculpe dizer um tanto imaginária. Mas é sua. A verdade é que este livro de Saint Exupéry foi escrito dentro de uma pane no deserto da África. O livro é uma alegoria aos mais nobres sentimentos do ser humano: saber amar, ser generoso, conhecer sua solidão e saber que apesar dos inúmeros personagens que encontra saberia que nenhum o preencheria o suficiente, apesar de terem seus talentos. Cuidado ao criticar de uma forma fulgaz o que é uma obra prima da literatura francesa, pelos seus valores humanos, sua imensa consciência de si mesmo até nos fazer entender que o essencial é mesmo invisível aos olhos, e daí somos responsáveis pelo que cativamos e cuidamos, porque é único e sempre será.

Anônimo disse...

preciso saber a pagina onde está a frase: Exupéry em seu livro O Pequeno Príncipe (ano, p.?): “Tornamo-nos responsáveis pelo que cativamos”.
Obrigada

R disse...

A frase em questão está em Le Petit Prince (Éditions Gallimard, 1999, p.78).