28.10.11

mentira

Ontem eu menti para um morador de rua. Dito desta forma, sem explicação, parece algo negativo. Acontece que foi assim: eu vi que um morador de rua precisava de uma coisa que eu tinha no exato momento em que o encontrei. Disse-lhe, então, que tinha duas delas, e que, por tê-las sobrando, lhe daria uma. Ele, um pouco relutante, mas com visível alegria, aceitou a minha oferta. Porém, o fato de eu lhe ter dito que tinha duas era mentira: eu só tinha uma — exatamente aquela única que lhe dei... Ele estava sentado na soleira de uma porta fechada, no centro da cidade, com sua velha mala azul ao lado esquerdo. Tinha uma postura respeitável, um olhar seguro, a fala mansa, a barba longa, cabelos penteados. E sorriu quando nos despedimos. Jamais me esquecerei daquele olhar agradecido. Será que era Jesus travestido de andante? Talvez não. Mas eu acho que vou escrever algo mais a respeito. Principalmente, sobre o sentimento de plenitude em que mergulhei ao ficar livre de uma coisa que me era extremamente útil e valiosa, mas de que um outro ser humano — talvez divino — precisava muito mais do que eu.

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