6.8.11

Afrodite se quiser

Afrodite se quiser

No primeiro dia, beijo-lhe os pés delicadinhos, chupo-lhe os dedinhos excitados — um por um — sinto todos os perfumes, percorro-lhe os meandros, as curvinhas tão secretas. Minha língua coleando seus caminhos de amor, meus lábios dançam de alegria entusiasmada. Êxtase total. Porém, depois de uma semana, ou duas, antes de fazer isso já lhe passo um discreto paninho para retirar areias finas. Ainda passo cremes importados, ainda faço-lhe massagens carinhosas, e repito operações. Ainda existe alegria nos caminhos novos que percorro aos pés do meu amor — e muito. Mas, depois de um mês, ou dois, já me esforço um pouco para lembrar que ela tem pés... E se tento beijá-los, às vezes me distraio. Tem pedregulhos nos vãos dos dedos dela, o perfume parece que se foi, e o creme se acabou. Minha língua se transforma então em cascavel inexplicável, fica muda — e vai correndo procurar outras maçãs lá no céu da minha boca. Um ano depois, ou dois, a relação vira um deserto, e tudo tem gosto de areia...

Acho que é o tempo.
E o vento.

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