23.7.11

se amar

MEU CONCEITO DE AMOR

Amar é permitir sempre. Amar é deixar que o outro vá – ou que fique, se assim o desejar. Amar é ter um respeito absoluto pela própria liberdade e pela liberdade do outro. Amar é compreender sempre. E isso não significa apenas entendimento racional, vai além, muito além: Amar é reconhecer afetuosamente o direito que o outro tem de fazer suas escolhas. Mesmo que essas escolhas eventualmente me excluam.


Mas, se amar significa "reconhecer afetuosamente o direito que o outro tem de fazer suas escolhas" — como eu sempre digo — será que nessa colocação pode estar implícito que devo aceitar as idéias do outro, todas, mesmo as absurdas, e incorporá-las como se fossem minhas, se ele assim o desejar?
Claro que não.
Isto seria uma violência.
Cada um de nós tem um sistema de valores.
Mesmo que seja em nome do amor, a submissão é um horror.

Portanto, amar não significa aceitar todas as escolhas que o outro fizer, mas sim apenas aquelas que não impliquem uma supressão da nossa liberdade pessoal. Porque falta de liberdade causa uma dor imensa. E se causa dor, não é amor. Portanto, se uma determinada escolha feita pelo outro, que diz me amar, contraditoriamente cerceia minha liberdade, ou violenta minha dignidade, me sufoca ou atormenta — então essa escolha me faz mal, e deve ser rechaçada imediatamente, com determinação. Jamais devemos compactuar com quem nos fere ou nos amputa. Sem essa de beijar o carrasco em nome do amor...

Sem liberdade a vida morre.

Amar de verdade é jamais ter ciúmes, nem medo de perder. Amar é não forçar nada, sequer um beijo. Amar é não fazer perguntas desnecessárias ou indiscretas — muito menos na hora errada. Amar é deixar fluir a relação em todos os sentidos. É incentivar o vôo livre que o outro possa estar querendo, e às vezes até mesmo empurrá-lo com ternura para o abismo gostoso do desconhecido profundo. Amar é respeitar com devoção e aplaudir com entusiasmo esse desejo louco de saltar que o outro às vezes tem. (...)


Eu defendo a tese de que o amor deve ser livre. Se não for livre, chame-o de qualquer outro nome — menos de amor. Aliás, é bom perguntar: se o amor não for livre, como será ele, então? Amor preso? Encarcerado? Acorrentado? Será que alguém, com um mínimo de respeito à vida, pode ser contra o amor livre? Sei que esse é um tema complexo, impossível de ser debatido em meia página de um blog. Mas gosto de supor que sinto-me amado, realmente, quando a pessoa que diz me amar pode olhar-me nos olhos e também dizer, do fundo do coração:

Eu te amo quando não preciso mais dizer te amo.
Eu te amo quando reconheço teu Direito de Fazer Escolhas.
Eu te amo quando respeito tua própria liberdade tanto quanto a minha.
Eu te amo quando compreendo tua vontade de às vezes ficar só.
Eu te amo quando não te sufoco com chiliques ou pressões.
Eu te amo quando ponho afeto entre as nossas distâncias.
Eu te amo quando aplaudo os teus desejos de voar.
Eu te amo quando me convenço de que o ciúme é o câncer do amor.
Eu te amo quando te ajudo a ser mais livre do que eras quando eu te conheci.
Eu te amo quando a recíproca a tudo isso também é verdadeira.





Tem gente que diz que o verdadeiro amor é aquele que dura para sempre. Ora, sendo assim, nunca saberemos se um determinado amor é mesmo verdadeiro, posto que o período de tempo chamado Sempre ainda não chegou — e jamais chegará. Do ponto de vista da Lógica, portanto, esta é uma afirmação tola. Inverificável. Improvável. Logo, tal frase, repetida ingenuamente por papagaios aprendizes, é um ridículo absurdo.

No texto acima eu analiso o Amor do ponto de vista da Lógica. Algumas pessoas podem dizer que o amor "não tem lógica". Compreendo suas razões. Entretanto, o Amor tem lógica, sim. É perfeitamente racional, e necessariamente determinado ao final de uma cadeia de raciocínios. É cerebral — antes de tudo.

15 comentários:

Rose disse...

Seus textos são belos, seu talento é inexplicável. Sei que a arte de escrever requer muito mais que isso (...), mas você supera todas as "barreiras" de forma magistral.
Parabéns!!!
Sou sua fã...
Rose

Edson Marques disse...

Obrigado, Rose, pelas amáveis e incentivadoras palavras.

Estive hoje novamente no teu blog.
Parabéns por ser professora, Diretora!

Flores...

Edson Marques disse...

O ciúme é uma traição — pois se manifesta falsamente em forma de amor.

Vera Lúcia disse...

Parabéns pelo belo texto, que focalizou com propriedade o verdadeiro sentido do amor.

Abraço.

12 meses de mudanças! disse...

Oi!
Impressionante como acredito no amor com liberdade.. por muito tempo vivi cercada, encarcerada e adoeci...achava que era amor e não era...
Identifiquei-me
Abraços

VIDA E LIBERDADE disse...

Palavras que se cruzam que se desenrolam numa perfeita harmonia, dando sabor a elas, poeta.Como consegue temperar seus textos tão gostosamente...Será que assim como você os tempera e nós os experimentamos e gostamos...será que assim é o ato no mais puro conceito de amor?
Me embebedo de suas palavras, me causam delírio...me transformam numa deusa ...deusa da luca liberdade, da deliciosa e mais pura concepção da palavra Amor....
Você é um descobridor de pessoas que ainda não se descobriram...
Adoro vir aqui...poeta!

Beijos

Anônimo disse...

Estou nesse processo de deixar o outro ir, ele fez a escolha dele,não foi honesto, me machucou muito.mas ele tem todo o direito de viver o que deseja.E eu preciso achar minha dignidade e aceitar.
bjs Alessandra

Edson Marques disse...

Estou criando hoje um texto que vai, de certo modo, complementar (um pouco mais) esse meu conceito de Amor.

Pode ser lido aqui.

Edilene Torino disse...

Você me fez lembrar algo que escrevi sobre o amor, quando tinha 17 anos:
"(...)E se a força que vai é a mesma que traduzida vem
Aí a gente acredita que pode ser natural e sadio
E aprende a conjugar o verbo amar na 1ª pessoa do plural
E simplifica
Simplifica tanto, que fica quase imperceptível o limite entre a alienação e a genialidade.
Ou somos egoístas e exclusivistas Ou somos puros por demais
Ou nos fechamos num clã
Ou abrimos todas as portas e janelas
Ou vamos embora pra Pasárgada
Ou ficamos, ainda que descontentes
Afinal, somos seres alternativos

A doença do amor é não saber conciliar.

Bernadete Casturina Lemes disse...

Que bom, agora tenho companhia, quando desejo voar, estou entre nuvens, alguém me ama. Liberdade. Não inventei. Li de você. Obrigada

Abraço.

Pierre disse...

Querido e Admirado Edson, seus excertos filosóficos e poéticos geram uma espécie de prazer mental, intelectual que vai fundo na alma. O que tenho pra dizer na verdade é indizível por palavras. Cheiros!

truduit1988 disse...

bélissimo ...queria aprender a viver assim ..Parabéns você tem o dom das palvras

Anônimo disse...

Boa noite,
Parabéns pelo seu texto, um belo texto por sinal.
Mas me desculpe não concordar em algumas partes, não existe o certo ou errado nesse caso, cada um interpreta de um jeito diferente, como você diz ciúme é o câncer do amor, eu já não acredito nisso, um pouco de ciúme faz bem ao relacionamento, é um estimulante para cada vez vc surpreender a pessoa que vc ama....
Mas como disse anteriormente parabéns pelo texto.
VSC.

Silvano Dias disse...

Impressionante esse Celeiro do Amor, esse sentimento é diríamos uma Divindade absoluta, falar desse estereotipo é tão mágico que acaba sendo complexo, pois sua essência provém da simplicidade e da singularidade desse enigma, que chega e contamina sem pedir licença..Parabéns Edson Marques por proporcionar esse celeiro de fluidos da alma.

Beatriz Ramos disse...

Excelente e belo, parabéns! A personagem do meu texto deveria ter lido o seu há uns 30 anos...
Enfim, como diz o Buda; o momento certo é o agora, o lugar certo, aqui.
No amor, o apego excessivo esfria o coração.