26.7.11

deu certo

Se eu não mudasse, afundaria junto com as circunstâncias. Era preciso portanto que eu sumisse dali, que abandonasse tudo o que me envolvia. Tudo: o pai, a mãe, os irmãos, a família, os amigos, o dentista, o professor. O time, o futebol, as namoradas, minha vó, meus espetos de picanha. Eu tinha que abandonar tudo, inclusive minhas idéias, especialmente as preconcebidas. Os cobertores azuis, a pátria, a religião, e até mesmo meu querido cavalo Estrela. Eu tinha que abandonar tudo. Meus lençóis de cetim, meu quarto, minha cama, meus livros, meu baralho, meus recortes de jornal. Eu tinha que abandonar tudo — antes que chegasse o desespero. Eu precisava me desligar do passado, urgentemente. Então, como não tinha presente, enfiei meu radinho de pilha num saco de pão, enchi meu peito de futuro e de coragem, de alegria e de relâmpagos — e mergulhei de cabeça na incerta e gloriosa correnteza da vida. Nas águas revoltas do coração do mundo.

Deu certo.

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