Eis o que nos diz ele: “E se, algumas vezes, nos degraus de um palácio, na relva verde de um fosso, ou na solidão do teu quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, às ondas, à estrela, aos pássaros, ao relógio, pergunte a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira e rola, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte-lhes que horas são; e o vento, as ondas, a estrela, os pássaros, o relógio, hão de responder: É hora de embriagar-se!
Para não seres mais um escravo martirizado do Tempo, embriaga-te; embriaga-te sem tréguas. Com vinho, poesia, virtude, ou mulher — tanto faz!" Charles Baudelaire.
Versão minha, especialmente o final.
Radicalizando no seu próprio "raciocínio", se é que falam mesmo a verdade, e se agem mesmo dessa forma — devem ter apenas um amigo. Pois tê-los muitos significaria que todos esses amigos são de baixa qualidade... Se fôssemos levar a sério essa sua filosofia de jegue, chegaríamos a um absurdo, pois essas pessoas afirmam mais ou menos o seguinte: Se eu amo só Maria, então Maria é uma deusa. Ponto final. Mas se eu, além de Maria, amo Vera — então Maria deixa de ser deusa e fica pior do que é. E se, além de Vera e Maria, eu amar Alessandra, Joyce, Beatriz, Paloma e mais algumas — todas viram umas vacas... Ou seja, quem, sobre o assunto e com tal intenção, diz que "prefere a qualidade à quantidade", comporta-se como um boçal. Claro que Maria não fica pior pelo simples fato de eu amá-la e amar outras ao mesmo tempo. Assim como Maria pode muito bem amar José e Pedro e Marcos e Lucas e eu, tudo ao mesmo tempo — sem que nos tornemos jacarés. Será que é muito difícil entender isso? Será que essa coisa tão primária está realmente além da compreensão desses coitados, desses pobres infelizes?
Ainda não finalizei o texto. Mais tarde darei continuidade a esse tema.
Ontem, eu e Nietzsche fomos almoçar no Restaurante do Capitão, no Guarujá. Lá no meio das árvores, embaixo de uma bandeira pirata, ficamos comendo baião-de-dois, carne seca e mandioca frita. Falando sobre a vida e tomando cerveja com tequila. Por mais de seis horas... Na saída, eu ele abraçamos um cavalo magro que puxava uma carroça velha carregada de papel. E choramos.
"Assemelhando-se mais com a figura de um patriarca Zen ou de um Sócrates do que com a imagem familiar de um místico cristão, Gurdjieff era considerado, por aqueles que o conheceram, simplesmente como um incomparável despertador de homens."
Em verdade, em verdade, eu vos digo: Há dois Jesus Cristo: o teológico e o histórico. O Jesus da Teologia é Filho de Deus, personagem central da Mitologia Cristã — e sobre Ele não quero falar agora. Nem é preciso, pois os estudiosos se encarregam disso.
Mas o Jesus histórico — esse era "o Filho do Zé". Desde pequenino já era diferente. Ovelha negra. Uma mistura de santo, poeta, filósofo, artista e mestre zen. Solucionava conflitos, mostrava caminhos. Charmoso e simpático. Cabeludo. Falava por parábolas — ninguém o entendia. Amava mulheres e homens. Era completamente livre. Nunca se casou. Adorava uma festa: bebia vinho, dançava, brincava com todo mundo. Fazia milagres. Vivia sorrindo. Gostava de perfumes e cremes. Namorou Madalena. Dormia pouco. Jamais trabalhou...
Um era Filho de Deus, os dois eram Sábios — e ambos merecem o meu respeito.
Com base na tese que defendo no livro Teoria do Acaso, só somos o que somos porque fomos o que fomos. O destino não passa de uma inegável sucessão de acasos. A liberdade é sempre condicionada pela base material da existência. Se meu bisavô não tivesse raptado sua amada Vitalina em 1920, eu sequer existiria. Se alguém batesse à porta do meu pai minutos antes de ele transar com minha Mãe no dia em que fui gerado, eu também jamais existiria. Isso vale inclusive pra você. E se eu tivesse me casado com o primeiro grande amor da minha vida, certamente não estaria aqui, agora, solteiro — e feliz. Ou talvez meu conceito de felicidade fosse outro, e eu hoje poderia estar mais feliz ainda. Mas, com base nas estatísticas, e se o casamento é mesmo o túmulo do amor, tivesse casado, eu hoje estaria morto — no sentido figurado, ou de verdade, tanto faz. Como se vê, o acúmulo das decisões tomadas por nós determina a situação presente. Nesse sentido, se eu mudasse qualquer das decisões que tomei, por menores que fossem, em qualquer momento anterior da minha vida, nada do que vivi após essa decisão teria acontecido como aconteceu. E hoje eu não seria o que sou. Poderia estar melhor ou pior, não importa. O que realmente importa é que toda decisão é crucial. Portanto, reflita bastante sobre as decisões que você estiver tomando hoje. Elas determinarão o teu futuro, necessariamente. E como mudar o passado não é mais possível, tente mudar o futuro. Se o caminho que você hoje percorre pode desembocar na escuridão, tome providências. Às vezes, na vida da gente, logo ali à frente pode haver uma emboscada. Ou uma porta escancarada para o céu, não se sabe.
Claro que também já tive algumas relações bastante duradouras: Dora, cinco anos. Patrícia, três anos. Suzana dois anos, ou mais. Joyce Ann, cinco ou seis anos. Eliana, Vera, Fábia, Sandra, Beatriz, Paloma, Alessandra, Sônia, Marina, Dayane, Camila, e mais dezenas e dezenas de outras — todas com períodos relativamente longos: seis meses, um ano! E como não tenho ainda o poder da ubiquidade — nem cento e vinte anos de vida — muitas dessas relações foram simultâneas, superpostas, adjacentes, intercaladas... Foram — e ainda são. Muitas ainda são.
Esta é uma homenagem à minha Mãe, que já está me esperando para o Natal.
Abaixo, um texto que escrevi em 2005, Guarujá, quando acordei e vi uma foto dela ao meu lado, num quadrinho:
Hoje acordei de manhã, esparramado na sala depois de ver o começo de um filme, e havia uma mulher me acariciando, emoldurada, pertinho do meio copo de vinho vermelho caído no chão que esqueci de tomar, entusiasmada, segurando uma bacia de girassóis. Essa mulher, que nunca vi triste, que incentivou sempre todos os meus amores, me inspira suspirando, me aceita como sou — e me diz, toda hora, que o verdadeiro amor é a união de duas espontaneidades, a fusão desgovernada de dois devaneios. Me ama, eu sei, mas antes de me amar, sei que ama o infinito absoluto onde eu danço as minhas próprias escolhas profundas. Desde que nasci, essa mulher me alimenta de leite, amor, vitaminas, desapego, feijão, arroz e liberdade. Achava melhor ensinar-me a ser homem do que pregar-me um botão. Toda noite me contava histórias pra que eu não dormisse. Cantava o Kyrie Eleison como se fosse uma canção de ninar pelo avesso. Jamais quebrou as lanças da minha ousadia, nem pensou em cortar-me as asas de pássaro livre. Ainda me ampara com firmeza, sustenta-me a alma e me aplaude as loucuras. Nunca brigamos. Mil quilômetros nos separam hoje, mas sei que ela me ama da única forma que uma mãe ama seu filho: incondicionalmente. A recíproca também é verdadeira. Então dou um beijo na boca da foto, me viro de lado e volto a ver Kurosawa. Quero sonhar com Van Gogh de novo. E, porque sou produto escandaloso de uma deliciosa mitologia grega, sonharei com Freud também, naturalmente.
Ninguém tropeça em sua língua ao ler o que eu escrevo. Mas no meio da frase passou por aqui, falando só, um senhor catando lata. Dei-lhe a minha e um sorriso. Não sei quanto lhe vale, se mais a lata ou meu sorriso, mas dei-lhe a minha mesmo assim, como se fosse a minha alma, minha calma, o meu amor. São 16h09. A tarde ainda é cedo. Hoje na praia. Dê um click na imagem para ver o texto todo e as outras fotos.
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