2.11.10

dia dos mortos

Eu não choro a morte de ninguém. Tenho uma compreensão absoluta desse fato inexorável que é a morte biológica das pessoas que eu amo. A primeira morte marcante de que agora me lembro é da minha vó Vitalina. Depois, há mais de vinte anos, a de meu pai — a quem escrevi um poema de amor. E a mais recente, ontem, a do Gaiarsa — com quem troquei e-mails há cerca de vinte dias. São essas as três únicas mortes que me fariam chorar. E mesmo assim não fizeram. Porque, para mim, a morte nada mais é que uma separação radical. Como não tenho sentimento de posse sobre aquele que morre, não posso dizer que lhe sinto a falta. Não há luto na situação que me resta. E se algum dia eu chorar (ou chorei) por alguém que morreu, é só pela lembrança daquilo de bom que algum dia fizemos, um para o outro.

Não há sentimento de perda, nem um vazio me toma de assalto. Eu compreendo sempre o acaso que nos liga — e o acaso que nos separa. Claro que detesto supor que a morte pode ter sido dolorida a quem a sofreu. Nesse sentido, um dedinho queimado de alguém me esquentando café no fogão de manhã me incomoda também. Sou contra a dor, não sou contra a perda. Aliás, só a perda abre caminho para o novo — e o novo é fascinante.

Claro que tem uma morte que vai me afetar diretamente: a minha. Embora remotíssima, eu também a compreenderei... Mas não quero ser chorado apenas porque fui. Aliás, imagino-me saudado em meu último dia como o personagem de Charles Denner no filme O homem que amava as mulheres.
Mas digo isto porque sei que vou durar para sempre. Para sempre ou até os 120, pelo menos. Ou talvez eu morra como previ naquele meu poema que está no livro Solidão a Mil — no cume da montanha, louvado por Maria e minha mãe. Não sei. Daqui uns oitenta anos eu talvez pense um pouco mais a respeito.


Como se vê, as pessoas que eu amo raramente morrem.

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