8.2.08

navegantes errantes

Quem navega com mapas e bússolas não descobre mais nada. Só a alegria dos navegantes errantes é que descobre mundos novos. E os encanta.
Edson Marques.



"Quem chegou à liberdade da razão, ainda que apenas em certa medida, não pode sentir-se sobre a Terra senão como andarilho — embora não como viajante em direção a um alvo único: pois este realmente não há. Deve ter os olhos abertos para tudo o que se passa no mundo, é claro, mas não pode prender demais seu coração a nada exclusivo. Tem de haver nele próprio algo de errante, que encontra sua alegria na mudança, no passageiro e na transitoriedade.

Sem dúvida sobrevêm a tal homem noites péssimas, em que ele, cansado, encontra fechadas as portas da cidade que deveria dar-lhe abrigo; talvez, além disso, como no Oriente, o deserto chegue até a porta, os animais ferozes uivem ao seu lado, um vento mais forte se levante, ladrões lhe furtem seus animais de condução. E então cai para ele a noite pavorosa, como um segundo deserto sobre o deserto, e seu coração chega a se cansar dessas andanças. Mas quando surge o sol da manhã, flamejante como uma divindade da ira, quando a cidade enfim se abre, ele vê nas pessoas ainda mais deserto, mais sujeira, mais engano, mais insegurança do que fora das portas — e o dia é quase pior do que a noite.

Bem pode ser que isso às vezes aconteça ao andarilho.

Mas então, como recompensa, surgem as deliciosas manhãs de outras regiões e dias, em que já no alvorecer da luz, na névoa da montanha, ele vê enxames de musas passarem dançando perto de si, em que mais tarde, tranqüilo, no equilíbrio da sua alma, ele passeia entre as árvores, e lhe são atiradas de suas frondes e dos recessos das folhagens somente coisas boas e claras, presentes de todos aqueles espíritos livres, que na montanha, na floresta ou solidão se sentem em casa, e que, iguais a ele, em sua maneira ora gaiata, ora meditativa, são andarilhos, poetas, loucos e filósofos. Nascidos dos segredos da manhã, meditam sobre como pode o dia de hoje ser tão belo e ser tão puro, tão radiante, translúcido e sereno. Esses — esses só buscam o agora."

Nietzsche - Humano, Demasiado Humano.


Esta é a minha versão do Capítulo VIII - inciso 638. Tomei como base (e mexi bastante nela) a belíssima tradução feita por Rubens Rodrigues Torres Filho, meu ex-professor na USP.

Compare as versões. A original está no primeiro comentário.

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