25.10.07

Vitalina Botticelli

Ela me ensinou a pecar sem culpa — isso eu jamais esquecerei. Tinha um pé de café lá no fundo do quintal, ao lado de uma roseira, e eu ficava colhendo só os grãozinhos vermelhos, que eram bem doces. Havia também um velho torrador de manivela meio enferrujado, um fogão de lenha limpíssimo, e muitas histórias de amor. E uma ciência sutil que só as mulheres eleitas por Deus conseguem ter.

O processo todo das lições que ela me dava é muito longo — passa até por um despertador de alumínio, um Jesus de madeira corroída, uma bicicleta vermelha e várias tentações. Um dia desses vou descrevê-lo aqui.

Ela ainda assava queijo branco na palha de milho, todo dia, e me olhava com seus olhos de mistério. Mas, a imagem que mais me volta hoje à lembrança... é minha Vó Vitalina olhando o Botticelli pregado na parede da sala, e tomando café no bico do bule. Delicadamente — como se fizesse amor.


Vou agora fazer o meu.

Antes que a noite acabe e a lua se vá.

3 comentários:

Edson Marques disse...

Baseado em fatos deliciosamente reais.

facesdaalma disse...

O sabor e aroma do café da minha mãe é único e especial. E ela diz que é sabor de amor e família. E aonde quer que eu esteja quando sinto o aroma de um café sou remetida as tardes de domingo família reunida e o café fresquinho da minha mãe. Adorei sua avó Vitalina e sua prosa. Abçs com aroma de café...

Lisa libanesa disse...

Tudo o que um dia aconteceu em nossas vidas, ficou já marcado, como fatos importantes e que nos fizeram muito felizes...
São fatos que para nós deixaram inclusive sabores e aromas..
Sinto hoje o mesmo aroma de tudo o que minha mãe cozinhava...seus torresmos, virado à paulista com liguiça pura de porco , ovos fritos , arroz branquinho...couve feito fio de cabelo tão fina ela era...
Tudo virou história, para outras pessoas, mas à nós se transformaram em vivas recordações...
Recordar é reviver...poeta...
e você revive tão naturalmente todos os fatos de sua vida, que aos seus leitores, parecem que aconteceram ontem...
Adoro você poeta!!!

Sempre....e para sempre!

beijos